Mulheres e Quadrinhos

                Desde que The Yellow Kid foi publicado pela primeira vez, em 1895 (o nascimento dos quadrinhos) as histórias em quadrinhos são consideradas coisas de meninos. Como, aliás, todas as mídias em sua origem. As mulheres se interessariam tão somente por histórias românticas e água com açúcar. Super-heróis, ficção científica ou qualquer outro tipo de quadrinho simplesmente não era para meninas. Esse festival de machismo se espalhou durante muitos anos nas HQs das principais editoras. A Mulher-Maravilha, por exemplo, quando ingressou na Sociedade da Justiça da América (uma espécie de primeira versão da Liga da Justiça) foi para ser SECRETÁRIA do grupo, já que essa era a função que se podia esperar de uma mulher. E assim foi durante muito tempo. As personagens femininas estavam lá como enfeite, como atração para os leitores masculinos. Seios enormes, cinturas minúsculas, saltos altíssimos e uniformes decotadíssimos que poderiam ser funcionais para qualquer outra coisa, menos para combater o crime.

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                Nos últimos anos, felizmente, o cenário tem mudado. Talvez as editoras tenham se tornado mais conscientes, talvez tenham se dado conta de que ignorar METADE do público consumidor não fosse a coisa mais inteligente de se fazer. Independente do motivo, é fato que ultimamente temos mais mulheres nos quadrinhos. Personagens antigas como a Mulher-Maravilha e a Mulher-Aranha ganham mais importância nos seus universos e novas personagens são criadas aos borbotões, como Miss Marvel, Moon Girl, Jessica Jones, America Chavez ou Garota Esquilo. A Marvel, inclusive, tem dado um (ousado) passo além: mulheres estão assumindo o manto de personagens clássicos da editora, como a nova Thor, a Capitã Marvel (em inglês o substantivo Captain não varia em gênero e o tradicional Mar Vell foi substituído por Carol Danvers) ou o Homem de Ferro (que nos quadrinhos não é mais Tony Stark, mas Riri Williams, uma adolescente negra que tem usado o codinome Ironheart). A DC já confirmou o filme da Mulher-Maravilha com Gal Gadot (será o primeiro filme solo de heroína), enquanto a Marvel já escalou Brie Larson para viver a Capitã Marvel nas telonas. Nunca os quadrinhos mainstream foram tão diversos como são hoje, e isso é ótimo.

                A falta de diversidade na produção dos quadrinhos era reflexo, é claro, de um meio extremamente machista e um “Clube do Bolinha”. Eram pouquíssimas as mulheres envolvidas na produção de quadrinhos. Felizmente esse cenário também está mudando (muito mais devagar do que deveria, enfim). Minha intenção com esse texto (que não por acaso será publicado no mês da mulher) é justamente chamar a atenção para algumas dessas mulheres que estão trabalhando na indústria dos quadrinhos e tornando-a mais parecida com o nosso mundo real.

Miss Marvel, America Chavez e Jessica Jones: personagens novas celebram a diversidade na Marvel

Wolverine, Thor e Iron Man (Ironheart): novos rostos para antigos personagens buscam afirmar o protagonismo feminino.

Gail Simone

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                Gail Simone nasceu em 1974 no Oregon, nos EUA. A grande indústria dos quadrinhos tomou contato com ela em 1999 quando ela fez parte de uma grupo de mulheres que criaram o site “Women in Refrigerator”. O nome do site é uma referência a uma trama do Lanterna Verde (Kyle Rayner, na época) escrita por Ron Marz na qual o herói chega em casa e encontra sua namorada morta e esquartejada dentro do refrigerador. A ideia do site era listar casos de mulheres nos quadrinhos que tivessem sido mortas, estupradas ou mutiladas com o único objetivo de servir de “escada” para a trama de um herói homem. O site, cheio de debates sobre machismo nos quadrinhos, gerou muito barulho na época e acabou colocando o trabalho de Simone em evidência.

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Kyle Rayner encontra sua namorada esquartejada no refrigerador

                       Ela escreveu algum tempo para a revista dos Simpsons até chamar a atenção da Marvel, onde foi a responsável por reinventar Deadpool. O “Mercenário Tagarela”, criado por Fabian Nicieza, era até então só mais uma cria dos anos 90 com muitas armas, katanas e pochetes por todo o uniforme. Quem deu a Wade Wilson a personalidade hoje tão característica dele foi Gail Simone, durante a sua passagem pelo título. Sem o Deadpool de Gail Simone não haveria o filme do personagem, com todo o sucesso que vimos no ano passado.

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O Deadpool de Gail Simone, encantado pelo Thor (quem não??)

               Depois de desentendimentos com a Marvel, Gail Simone foi trabalhar na DC. Assumiu o título das Aves de Rapina (Birds of Prey) a partir do número 55 e a DC passou a ter uma revista regular escrita por uma mulher e protagonizada exclusivamente por mulheres (Oráculo, Canário Negro e Caçadora). A passagem de Gail Simone pelas Aves de Rapina serviu para dar profundidade a todas essas personagens, em especial Barbara Gordon (uma das tantas “Women in Refrigerator” das quais Simone anos antes tanto tinha falado). É interessante perceber que, durante as mais de 60 edições de “Aves de Rapina” conduzidas por ela, os uniformes das heroínas foram sendo sutilmente atualizados por ela e pelo desenhista Ed Benes, deixando para trás os saltos e decotes inexplicáveis e adotando visuais mais condizentes com mulheres lutadoras. Ainda pela DC, Simone foi a responsável pelo spin off “Vilões Unidos” na Crise Infinita, durante a qual ela revitalizou o personagem Homem Gato (que sim, se tornou um personagem bem interessante!!). “Vilões Unidos” fez tanto sucesso que acabou dando origem a uma série fixa, “Sexteto Secreto”, que permaneceu viva até o “fim” de todo (aquele) universo DC. Ela é, até hoje, a mulher que mais tempo esteve a frente do título da “Mulher-Maravilha”, que ela escreveu de 2007 até 2010. Em 2011 ela foi a responsável por devolver o capuz de Batgirl para Barbara Gordon, recuperada da paralisia que o Coringa havia causado a ela em “A Piada Mortal” e, nas palavras da própria Gail, “retirando a Batgirl do congelador”, numa alusão ao seu projeto “Women in Refrigerator”

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Nas Aves de Rapina de Gail Simone e Ed Benes, Canário Negro deixou de ter o incômodo decote proeminente e trocou o salto alto por coturnos. Em alguns momentos, como esse, até a tradicional meia-arrastão ficou para trás.

               Atualmente Simone escreve “Red Sonja”, para a Dynamite Comics. É um nome consagrado no meio e a garantia de um título sólido e de vendas regulares.

Pia Guerra

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                Pia Guerra é uma ilustradora canadense multipremiada (tem inclusive um Eisner na prateleira) com diversos trabalhos em revistas como Os Simpsons, Dr. Who e Torchwood. Seu trabalho mais conhecido, no entanto, foi a colaboração com o roteirista Brian K. Vaughan na série “Y: O Último Homem”.

O traço claro e limpo e a precisão no storytelling caracterizam a arte de Pia Guerra em Y: O Último Homem

Fiona Staples

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                Outra canadense, Fiona Staples é desenhista, arte-finalista, colorista e capista (o que não é pouca coisa: é normal ter uma pessoa para cada uma dessas funções). Trabalhou em títulos da Wildstorm como “Hawksmoor” e “Autorithy” mas é conhecida por ser a responsável, desde 2012, pela maravilhosa “Saga” (outro roteiro de Brian K. Vaughan). O trabalho de Staples em Saga já lhe rendeu dois Eisner e é incrível. As raças alienígenas imaginadas por Vaughan ganham vida no traço da escritora que consegue caracterizá-las de maneira única. Como se não bastasse, cada uma das capas de “Saga”, sozinha, já é uma peça de arte por si só. Dá vontade de enquadrar cada uma delas.

A arte maravilhosa de Fiona Staples em Saga: dá vontade de não parar de olhar

Érica Awano

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                Érika Awano é uma brasileira, neta de imigrantes japoneses, que começou a desenhar quadrinhos ainda na década de 90. Suas primeiras participações foram em licenciamentos de videogames que saíram em quadrinhos no Brasil, como Megaman e Street Fighter. Seu trabalho mais exitoso foi na série Holy Avenger, o quadrinho nacional de maior sucesso de todos os tempos (tirando, é claro, a Turma da Mônica). Holy Avenger nasceu como um spinoff do universo Tormenta de RPG e tornou-se uma série mensal que durou 42 números (quase quatro anos). Além de ilustrar o projeto, alguns personagens criados por Érica acabaram incorporados à trama, como o pirata James K, seu navio Bravado e sua irmã Anne.

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Valkária, capital do Reinado, onde se passa Holy Avenger

                Awano tem um estilo bem próximo do mangá e da arte oriental, embora não se considere uma “mangaka”. Segundo a própria, a narrativa do seu trabalho nem sempre segue a lógica dos quadrinhos japoneses.

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                Atualmente Erica trabalha no mercado norte-americano. Foi a responsável pelo traço da adaptação para os quadrinhos do filme “Warcraft” e ilustrou uma versão de “Alice no País das Maravilhas” roteirizada por Leah Moore.

Karen Berger

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                Num universo de roteiristas e desenhistas, quem REALMENTE manda é o editor. Ele toma as decisões executivas mais importantes, como QUAIS desenhistas e roteiristas contratar, em que títulos alocá-los, que títulos devem sair de circulação e em quais vale a pena insistir. Em última instância, é o editor o responsável pela parte financeira das escolhas. Ele decide onde vai a grana e que caminhos tomar para conseguir aumentar rendimentos.

                Karen Berger nasceu nos EUA e graduou-se em Literatura Inglesa pela Brooklyn College. No início dos anos 80 ela ingressou no mercado editorial como assistente do lendário Paul Levitz. Mais interessada pelos chamados “quadrinhos de horror”, Berger foi a responsável por fazer a ponte entre a editora norte-americana e a nova geração de quadrinistas ingleses. Foi ela que contratou Alan Moore para escrever o “Monstro do Pântano”, dando início à chamada “invasão inglesa” que viria nos anos 90. Também foi ela que conversou com Neil Gaiman e o convenceu a embarcar no projeto de atualizar e recauchutar um antigo e então obscuro personagem que andava meio largado desde a dita “Era de Ouro” dos quadrinhos (os anos 50): assim nasceu “Sandman”, uma das maiores obras-primas publicadas pela DC.

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O “Monstro do Pântano” de Alan Moore

                O sucesso de “Sandman” e do “Monstro do Pântano” permitiu que Berger se tornasse a chefe de um novo e ousado projeto. Nascia, em 1993, o selo Vertigo. Um braço da DC Comics destinado aos quadrinhos adultos e pelo qual ela era a principal responsável. Sob a batuta de Karen Berger, além do Monstro do Pântano e do Sandman, nós vimos nascer séries como “Hellblazer” (a série do hoje famoso John Constantine), “Preacher”, “100 Balas”, “Os Invisíveis”, “V de Vingança”, “Fábulas” e “Y: O Último Homem”. Depois da “virada” de 85 a criação do selo Vertigo, em 93, talvez seja um dos momentos mais importantes dos quadrinhos das grandes editoras dos EUA, já que assumia a ideia de que quadrinhos poderiam (e deveriam) ser também para adultos. O ganho QUALITATIVO de público da DC com o selo Vertigo foi incalculável.

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O Sandman de Neil Gaiman

                Karen Berger tem três prêmios Eisner em casa e projetos novos à vista: anunciou, agora em 2007, o selo de quadrinhos autorais Berger Books, a ser publicado pela editora Dark Horse.

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