Do elevador

por Brunna Stock

Na minha cidade tem um shopping que só tem estacionamento no subsolo e toda vez que vou lá há um momento de tensão: o elevador. Em meu caminho usual do Subsolo 2 (gosto de estacionar no S2 porque é um coração, me julguem) para o 1° andar, encontro toda vez – TODA VEZ, every fucking time – os três “tipos” do elevador.

Tipo 1 – O ansioso: fica na passagem da porta, esperando que as leis da física mudem e o seu corpinho e o do cidadão que quer sair possam ocupar o mesmo espaço.

Tipo 2 – O aproveitador: está no S2 e quer ir para o 1° andar, mas ignora que o elevador esteja descendo e entra nele para dar uma volta até o S4, garantindo seu lugar na desejada subida.

Tipo 3 – O caótico: desconhece este organizador social chamado fila e cria uma aglomeração ao redor da porta como se ela fosse a entrada do local de prova do ENEM.

Observe que há intersecções possíveis, que estão ilustradas no diagrama abaixo:

Do elevador diagrama.png

Note que há alguns comportamentos que se sobressaem, como nas interseções 1 e 2 relativas ao Tipo 3: O caótico. O primeiro movimento dos que se encontram nessas interseções é o caos, é ocupar algum lugar próximo ao elevador desconsiderando todxs xs demais que ali já estão – também se poderia chamar esse tipo de O colonizador, fica a reflexão. Após, o seu comportamento muda segundo uma nova condição, seja a abertura da porta e seu ímpeto de se posicionar na passagem; seja a sinalização descendente do equipamento e seu pensamento de “hummm vou ser esperto e aproveitar”, que consiste numa exemplificação da expressão ~dar uma de João sem braço~. Não sei qual é a do braço do João, mas meu pai usa isso o tempo todo para os motoristas que estão na pista errada e querem se atravancar na frente de todo mundo. Sim, pesquisadores replicaram esse estudo e observaram a existência desses “tipos” no trânsito e no transporte coletivo. No ônibus, porém, excluí-se o Tipo 2: O aproveitador e incluí-se o Tipo 4: O egoísta, que não se oferece pra segurar a mochila do coleguinha que está em pé no melhor estilo lata de sardinha. Este também não cede seu lugar para idosos e coloca o guarda-chuva molhado no banco do lado. Desprezível.

Voltando ao diagrama, a Interseção 3: O ansioso² é alguém que precisa desesperadamente sair do S2, levando à predominância do comportamento ansioso. Em geral, essas pessoas não conversam enquanto esperam o seu deslocamento e olham ansiosamente para o visor do elevador, comemorando em seu âmago cada andar atravessado que o deixa mais próximo de seu destino. Comportamento visto comumente naqueles que estão atrasados para o cinema.

Enfim, temos a Interseção 4: Alguém que não é digno de confiança. Você está lá, bonitinha, esperando seu elevador, quando chega alguém que se coloca na sua frente para entrar primeiro (amo o caos e vou defendê-lo). Ele observa o visor, vê que o elevador está descendo e, mesmo assim, decide por entrar na máquina, mostrando seu pior lado aproveitador. Por fim, no auge de sua ansiedade e egocentrismo, ele é incapaz de esperar os demais saírem e se coloca no caminho, quase fazendo força contra a corrente para garantir sua posição – e ainda reclama da demora dos que saem. Eu não confiaria neste psicopata, inclusive cogito que ele deveria ser privado de convívio com outros seres humanos. Definitivamente, não dá pra confiar.

Talvez seja necessário replicar essa análise para outros locais, como o banco, o RU e o supermercado. Deveríamos fazer um estudo etnográfico, talvez uma parceria entre grandes universidades, até mesmos internacionais (há evidências que suportam a existência desses tipos em outros continentes). Não, não – obviamente isso é um trabalho para o Globo Repórter. “Interseção 4: onde vivem? Do que se alimentam? Ele pode morar logo ao lado.” (leia isso com a voz do Sérgio Chapelin). GENIAL.

Enquanto isso tudo não acontece, eu sigo utilizando as escadas.

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