Do (re)conhecer

por Brunna Stock

Por mais que se estude psicologia da aprendizagem nas licenciaturas, ter feito mestrado em Educação serviu para me mostrar o quanto eu não sabia nada sobre esse tema, principalmente sobre a teoria piagetiana. Na tentativa de compreender a complexidade do pensamento desse tal de Piaget (hoje, meu best), uma das leituras que fiz se chama Estudos Sociológicos e ela me marcou pra caramba. Não que as outras obras não tenham sua importância na minha trajetória como professora, mas, veja bem, a minha formação era na Matemática e qualquer coisa que me levasse a tentar compreender seres humanos era surpreendente – e olha só eu, hoje, aqui no PáginaDois, falando sobre comportamento. Ousada.

O Piaget, com sua perspectiva interacionista, afirma que a construção da personalidade só se dá na interação com outras pessoas. Duas coisas a pontuar: 1) isso não é algo inovador, outros autores já disseram isso; 2) isso é óbvio, hoje, consigo ver as marcas da socialização na personalidade em diversos contextos – e a sociedade patriarcal em que vivemos deixa bem evidentes alguns desses casos. Mas, na época em que comecei a ler sobre esse assunto, eu achei surpreendente. “Mas a personalidade não é sobre o individual? Como ela pode, então, se construir (também) no coletivo?” Depois de algumas leituras e, principalmente, trocas sobre isso – obrigada grupo de pesquisa – consegui concluir algumas coisas sobre e, dentro da minha ingenuidade, acreditava que compreendia essa construção do ser na interação.

Eis que, em um não tão belo momento recente na minha vida, eu percebi que ainda tinha muito a aprender sobre personalidade, pois comecei a questionar a minha. Eu não me reconhecia mais e não era algo sobre imagem, era sobre ser: eu não entendia mais a pessoa que eu era. Algumas certezas que eu tinha caíram por terra e eu não entendia algumas atitudes e pensamentos que me ocorriam. Algumas coisas que, antes, não me incomodavam, passaram a me enfurecer. Outras, que eu achava incabíveis, passaram a fazer sentido. Nesse furacão de loucuras da minha cabeça, eu duvidei de mim – do que eu sou e do que eu poderia ser.

Aí, durante esse período turbulento, teve um dia em que meus alunos não leram o texto para a aula. Minha primeira reação foi de fúria descomunal. COMO ASSIM, CARA? Era uma turma de uns 35 alunos e menos de 10 haviam lido o fucking texto. É claro que essa não foi a primeira e nem a última vez que isso aconteceu – e eu, no modo aluna, já fui pra aula sem o texto lido. Evidente que eu sei que meus alunos têm muitas outras coisas para ler e fazer e talvez REALMENTE não tenha dado. Mas, naquele momento de insegurança suprema do meu ser, eu só conseguia pensar que nem dar aula, que era uma das certezas da minha vida, eu estava conseguindo fazer direito. Aos trancos e barrancos a aula saiu e eu fui direto para o banheiro chorar de raiva e frustração.

E foi ali, naquela interação com xs alunxs e comigo mesma, que eu pude ver o quão nebulosos estavam os pensamentos que me habitavam. Foi uma experiência de parar o tempo, sair do meu corpitcho, olhar para mim – aquela pessoa ridícula chorando duvidando de si sentada no vaso sanitário – e dizer: você precisa rever a importância que dá para o seu trabalho. Esse foi o dia em que eu aprendi a importância de me ouvir. Nessa escuta, conheci uma nova pessoa que transpareceu sentimentos e pensamentos que eu não tinha ouvido ainda e ~ olha que louco ~ ela faz isso todos os dias.

Enfim, esse momento de insegurança, frustração e incertezas passou e veio um novo momento cheio de… insegurança, frustração e incertezas. Mas tudo bem, porque eu saí da doideira de tentar me reconhecer, de encontrar aquela pessoa que eu já conhecia, e entendi que o que eu precisava mesmo era me conhecer. Every single day. É como sair com uma pessoa nova todos os dias: “será que ela vai gostar disso?”; “será que ela prefere isso ou aquilo?”. Como em qualquer nova relação, a gente vai anotando algumas coisas à medida que passa pelas experiências. Por exemplo, eu gosto de kiwi. Eu não gostava de kiwi antes. Pode ser que eu não goste amanhã, mas, hoje, eu gosto de kiwi. Pisa menos, kiwi.

Se eu tivesse ficado numa vibe introspectiva eu teria chegado a essas conclusões sobre o meu perrengue ou sobre essa incrível frutinha de aspecto inusitado? Talvez. Dizem que a meditação e outros exercícios do silêncio característicos de culturas orientais são maravilhosos para nos entendermos. Eu arriscaria dizer que o são, justamente, por silenciar o que tem ao redor para conseguirmos ouvir a nós mesmos em alto e bom som. Mas, o que é impossível negar, é que isso não deixa de ser interação, só que conosco, com os monstrinhos da nossa cabeça, em um eterno “Oi, prazer em conhecer”. Manjava das coisas esse Piaget, né não?

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