Dos melhores amigos instantâneos

por Brunna Stock

Esses dias eu superei minha velhice de alma e me prestei a ficar 1h30min numa fila para uma festa. Nem eu acredito que estou escrevendo isso. Bom, estávamos eu e minha amiga bebendo e conversando, até que nós expusemos em voz alta nossa tensão de “será que vamos conseguir entrar na festa?”. Isso foi o suficiente para o pessoal que estava na nossa frente puxar papo e pronto: novo melhor amigo. Falamos sobre música, trabalho, estudos, tretas amorosas, teve até avaliação de nudes. Cada vez que nos víamos na pista era o momento mais lindo do universo e nada poderia ser mais forte do que aquele encontro e o nosso rebolar conjunto ao som do pancadão. No dia seguinte, nos cruzamos pela universidade e não nos falamos, apenas um abano à distância. Nunca mais nos encontramos na noite e assim foi decretado o fim da amizade – talvez até o próximo encontro.

Quem nunca fez uma melhor amiga no banheiro? Nossa, cê divide até as maiores inseguranças com aquele ser humano desconhecido. E em viagem então? Horas e horas compartilhando vivências e sonhos até você se dar conta que não sabe o nome da pessoa. Me pego pensando: como surge esse laço tão fácil de construir quanto de romper? Talvez seja uma questão de receptividade, pois, em geral, numa festa você está disposto a conhecer pessoas, assim como em uma viagem. Ou talvez eu estivesse, sei lá. Na real, estou sempre disposta a conhecer pessoas e trocar vivências – e acho que tenho uma cara de ~convite~, porque atraio gente a fim de conversar na rua aleatoriamente. Sem sombra de dúvida, tem relação com o momento. A pessoa que você encontra na festa ou viagem está passando por uma vivência, no mínimo, parecida: a mesma angústia de talvez não entrar na festa lotada, ou o descobrimento de um lugar novo. É vibe, sabe? E se a vibe é uma onda, então é aquele momento de ressonância. Superposição de ondas, alteração da energia do sistema, aumento da amplitude.

Talvez na vida seja por aí também. Sabe aquela pessoa que você conhece há pouquíssimo tempo e já construiu um laço super forte? Aquela pessoa que, há alguns meses, nem estava na sua vida e que agora está presente todos os dias? Melhor amigo instantâneo da vida. Talvez, ano que vem, esse melhor amigo já não seja mais presente, mas sempre há a possibilidade de ele se tornar aquele que vai pra fila com você ou com quem você vai planejar a viagem. Aí o instantâneo se torna duradouro. O louco é perceber esse movimento de pessoas que ficam e de pessoas que saem, identificar a fragilidade ou força do sistema. É também se ver nessa abertura para o novo, tanto para receber alguém quanto para deixar ir.

Então é isso: receptividade e ressonância. O bom das amizades duradouras é que não se precisa estar receptivo, aquela pessoa está lá e você sabe que pode contar com ela; porém, às vezes, a frequência das vibes está bem diferente. Já nas amizades instantâneas, talvez o bonito e, ao mesmo tempo, o problema seja a ressonância: de tão intensa ela pode quebrar o sistema. Mas, se todas as amizades são compostas de um pouco desses dois quesitos, então todas são, de certa forma, instantâneas – a grande questão é o que é ser instantâneo dentro do panorama de um lifetime. E, então, já não é mais uma questão de mecânica ondulatória, mas da relatividade, algo bem mais complexo, assim como as amizades. Afinal, talvez seja a vida uma grande festa ou uma imensa viagem, cheia de laços a serem (des)feitos.

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