mãe!

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Já nos cartazes, muitos significados e explicações sobre “mãe!”

                É difícil começar a falar sobre “mãe!” (mother!, Darren Aronofsky, 2017). O novo filme do diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) e “Réquiem Para Um Sonho” (Requiem for a Dream, 2000) já era polêmico antes do lançamento e torna-se ainda mais uma semana depois, em função de todas as discussões levantadas pelo longa. Teria Aronofsky ido longe demais? Teria ele mergulhado em pretensão? Ou teria ele cometido uma obra prima cinematográfica? Vamos tentar chegar perto de responder essas perguntas hoje.

ALERTA DE SPOILER: “mãe!” é uma experiência cinematográfica intensa. Para quem gosta de ir ao cinema sabendo pouco ou quase nada a respeito do filme, como eu, sugiro que pare de ler por aqui e volte depois de ter visto o filme. Se já viu o filme, siga adiante!!

                Aronofsky é um artista obcecado. Certos temas são recorrentes em sua filmografia e são quase previsíveis. O diretor tornou-se conhecido por “Pi” (1998) e “Réquiem Para Um Sonho” no começo dos anos 00. Em “O Lutador” (The Wrestler, 2008) o cineasta provou que poderia ser um grande diretor de atores, trazendo de volta do ostracismo tanto Mickey Rourke quanto Marisa Tomei. A explosão da popularidade de Aronofsky veio com o thriller sobre ballet “Cisne Negro” (Black Swan, 2010), que valeu para o diretor indicações a quase todas as premiações e também o Oscar de Melhor Atriz para Nathalie Portman. Depois do sucesso estrondoso de “Cisne Negro” o artista resolveu mergulhar em suas questões religiosas, e daí nasceu “Noé” (Noah, 2014). Tenho, aliás, que rever “Noé” em função de muitas coisas de “mãe!”. A obra de Aronofsky tem algumas temáticas recorrentes: a obsessão, a decadência e o questionamento de Deus, suas intenções e seu caráter(!!). Tudo isso está presente em “mãe!”.

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Era uma vez uma casa. No meio do nada, num lugar onde não há caminhos para chegar ou sair. E nessa casa, sempre, uma mulher.

                “mãe!” é um filme difícil de enquadrar em algum gênero. Os cinemas brasileiros tem chamado de “horror”, mas não é exatamente isso. Também não é drama. Não é exatamente um thriller. Não é um filme bíblico. E consegue ser todas essas coisas ao mesmo tempo. O filme é sobre um casal: uma mulher jovem e um homem mais velho habitam uma casa no meio do nada, um lugar onde não há caminhos, estradas ou ruas, apenas uma natureza idílica e genérica ao redor. Ele é um poeta, obcecado com a criação. Ela é a esposa dele, e seu papel é reconstruir a casa, que foi destruída por um incêndio. Essa informação do incêndio anterior é a única que temos sobre o passado de ambos. Enquanto o poeta tenta superar um bloqueio criativo, a mulher trabalha para tornar o ambiente mais agradável para ele e tenta incomodá-lo o mínimo possível. Há na casa e entre os dois uma tranquilidade tensa, um clima leve que dá a impressão de esconder algo pesado, algo que não estamos vendo. Essa pretensa calmaria é quebrada quando visitantes inesperados começam a aparecer na casa. Um médico. Sua esposa, no dia seguinte. Seus filhos. E a partir daí, o caos e a perda de controle, até o momento em que todos são expulsos da casa, após um acesso de fúria do personagem de Lawrence (é difícil escrever sobre personagens sem nome).

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Num dos raros planos abertos do filme, a mãe e a casa. É difícil dizer onde uma começa e a outra termina.

                No segundo ato, logo após a noite da expulsão das pessoas, ela aparece grávida. A vinda do filho ilumina a casa e enche o casal de esperança. Imediatamente o Poeta volta a criar, e acompanhamos o trabalho artístico dele ao mesmo tempo em que vemos a gravidez avançar e o trabalho artesanal dela, cuidando da casa, tomar novas formas. O novo texto do poeta faz muito sucesso e o seu lançamento coincide com a noite do nascimento da criança. Uma série de admiradores começa a chegar na porta do poeta por causa do seu novo trabalho, e a atenção dele se volta para os fãs enquanto deixa sua mulher e seu filho de lado. Esse segundo ato está recheado de referências a “O Bebê de Rosemary” (Rosemary’s Baby, Roman Polanski, 1968). Há uma gravidez que é tensa e pesada, ao invés de leve. Uma mulher mais nova (Mia Farrow/Jennifer Lawrence) que é conduzida na relação por um homem mais velho (Javier Barden/John Cassavetes). Um cenário completamente interno (“mãe!” é a casa, “O Bebê de Rosemary” se passa quase que todo dentro do mesmo apartamento). Um nascimento tenso. Um grupo de cultistas. Há inclusive um pôster de “mãe!” que conversa frontalmente com um dos pôsteres de “O Bebê de Rosemary”. E, bom, há a questão da paternidade também. Acho que poderíamos dizer que aqui o que há é uma simetria entre os dois filmes, já que os pais representam os opostos.

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“O Bebê de Rosemary” tem várias simetrias com “mãe!”

                A partir do nascimento da criança, tem início um terceiro ato em que o caos e a violência se instalam na casa. A narrativa abandona de vez o naturalismo e mergulha de cabeça num surrealismo selvagem. Se o segundo ato remete a “O Bebê de Rosemary”, o terceiro ato é “O Anjo Exterminador” (El Angel Exterminador, Luís Buñuel, 1962). O caos e a destruição física da casa acompanham o sofrimento da mãe (Jennifer Lawrence) que passa por parto e perda com uma proximidade lancinante. O filho é oferecido pelo pai aos seus adoradores, que o matam e quase que instantaneamente choram por ele, enquanto comungam. Violada, espancada, lacerada e tendo o filho morto, a mãe não tem outra escolha: ela termina com o mundo. O mundo acaba com fogo e explosão, da mesma forma que começou. A partir daí vemos o ciclo se reiniciar, sempre da mesma maneira, já sabendo o que vai acontecer.

                “mãe!” é um espetáculo técnico. Aronofsky conduz a história que começa lenta e termina alucinantemente rápida com a mão muito precisa de um diretor que sabe o que quer. A fotografia de Matthew Libatique, parceiro do diretor em quase todos os seus longas, faz um jogo de luzes, cores e iluminações lindo de se ver. A casa, durante o filme, se transforma. De clara e acolhedora no início a escura e claustrofóbica no final. Bardem e Lawrence sempre em roupas claras e tons pastéis, enquanto outros personagens predominantemente em tons escuros (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, principalmente). O som do filme é um capítulo à parte e mais um momento de brilhantismo de Aronofsky. Toda a tensão do filme (e o filme é TENSO) é construída SEM MÚSICA. Há uma única música no filme, e ela toca nos créditos finais. O filme se constrói com efeitos sonoros e muita, muita direção.

Não pode deixar de ser elogiada, mais uma vez, a direção de atores de Aronofsky. Javier Bardem está maravilhoso no seu papel. O seu Poeta é egoísta, mesquinho e egocêntrico, mas não conseguimos deixar de gostar dele. A doçura e o cuidado de Bardem, seu tom de voz e uma atuação muito sutil propõem isso. Nós nos indignamos com ele para imediatamente perdoá-lo porque o admiramos e gostamos dele, mesmo que não o entendamos completamente. Temos a noção de que sua obra é importante e muito maior do que nós, e por isso aceitamos seus excessos, seus caprichos e atos que não entendemos.

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Bardem e o seu Poeta, nos olhando de cima para baixo

Jennifer Lawrence é um capítulo à parte. A recente superexposição da atriz e o fato de ela ser vendida como a nova “queridinha da América” nublam o fato de que ela é, desde o início da carreira, uma excelente atriz. Quem duvida que procure por “Inverno da Alma” (Winter’s Bone, Debra Granik, 2010). O filme é todo feito em cima dela. A câmera passa boa parte do filme fechada no rosto de Lawrence. Sua mãe é um personagem que sofre calada, que pisa em ovos o tempo inteiro e que se dedica, de corpo e alma, ao seu companheiro. Sua realização está na obra dele. Seu amor por ele é inquestionável e incondicional. Não importa o que ele faça, ela o ama, sofre por ele e sabe que isso não vai mudar. Seu incômodo com a chegada dos visitantes estranhos, suas tentativas de se adaptar e sua performance incrível no terço final do filme, por si só, valeriam o ingresso.

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A mãe e a casa, uma coisa só.

“mãe!” é um filme que abriu espaço para inúmeras teorias, leituras e interpretações. Comecei a escrever sobre elas, e me dei conta que o texto ficaria muito longo. Aguardem, portanto, um segundo texto sobre “mãe!”. Esse vai se centrar mais nas teorias e interpretações possíveis sobre o filme.

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