mãe! parte 2: explicações e teorias

por Pedro Cunha

Este texto é a segunda parte. Se você está começando por aqui, sugiro que volte e leia primeiro o outro aqui. Ambos contêm spoilers!

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“mãe!” é uma metáfora bíblica, entre outras.

A primeira e mais óbvia referência é essa. Desde o início, Aronofsky praticamente esfrega o texto sagrado na nossa cara. O que não significa, é claro, que outras interpretações estejam erradas ou incorretas. O diretor se diverte em entrevistas falando a respeito e ele mesmo fala ora na metáfora bíblica, ora na questão do alerta ecológico, outras vezes até sobre o tema do culto às celebridades. Não existe, portanto, “certo” ou “errado”. Algumas questões a respeito, Aronofsky responde claramente. Outras, ele diz que não quer responder e que quer deixar as interpretações em aberto. Eu vou misturar um pouco essas explicações, teses, visões e teorias um pouco, usando a questão bíblica como “linha condutora”. Vem comigo!

Javier Bardem é Deus (a letra maiúscula em seu nome é a única em todos os créditos finais do filme). Durante o filme são constantes as referências diretas a ele como “Criador”, inclusive. Jennifer Lawrence é a mãe, é a natureza. Por vezes uma criação dele, por vezes uma parceira, por vezes simplesmente o cenário onde as coisas acontecem. Ao mesmo tempo em que ela é criada por ele, ela tem vontades e intenções também, mesmo que sejam ignoradas por todos em boa parte do filme. Bardem, solitário em seu paraíso, cria o primeiro homem, Adão (Ed Harris). Adão é diferente deles, ele tem defeitos. Ele é doente, fuma, esquece as bitucas de cigarro. E, desde o início, ignora os pedidos e advertências da mãe (como vou me referir ao personagem de Lawrence). A chegada de Adão (e sou eu que o chamo assim. Nos créditos do filme ele é apenas “man”, podendo ser um homem qualquer ou a humanidade toda.) também mostra o início da desarmonia na casa. A mãe, meio contrariada, derruba uma bandeja e quebra uma xícara, incidente para o qual Deus não dá muita importância. Deus se empolga com a presença dele, e justifica para a mãe que ele não tem para onde ir se não ficar lá. Na medida em que a presença dele se torna incômoda, ele diz para ela com todas as letras: “Eu gosto que ele esteja aqui. Ele é meu admirador!”.

A partir de uma costela de Adão (a cena do banheiro mostra um detalhe de um ferimento nas costas dele), cria a primeira mulher, que chega no dia seguinte e é vivida magistralmente por Michelle Pfeiffer. A personagem é, a princípio, Eva, mas em vários momentos pode ser Lilith ou até a própria Serpente. A presença dos dois desagrada a mãe, mas Deus gosta deles. E gosta principalmente porque é adorado por eles. Ele permite que façam tudo dentro da casa, com exceção de tocar no cristal que fica na sala da criação. O cristal atrai a atenção dos dois, que ficam fascinados por ele e tentam tocá-lo sempre que possível. Sob a influência do álcool (que também pode ser a Serpente), Eva entra na sala da criação e quebra o cristal. O fruto proibido está colhido. Pela primeira vez vemos a ira de Deus, que lacra a sala da criação e expulsa Adão e Eva de lá. Logo depois disso, a mãe abre uma porta e flagra Adão e Eva transando: a partir de agora existe o pecado, que não existia antes.

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Adão e Eva descobrem o pecado.

No dia seguinte, chegam os filhos do casal (interpretados por dois irmãos, Brian Gleeson e Domhnall Gleeson). Eles brigam por ciúmes e um deles mata o outro. Sim, Caim e Abel. O assassinato macula a casa. Não por acaso Caim, assim que mata o irmão, passa a mão com o sangue no rosto da mãe (Jennifer Lawrence, não Michelle Pfeiffer). A Terra fica marcada. A casa fica marcada. A pequena mancha no assoalho (que durante boa parte do filme fica metaforicamente escondida debaixo do tapete) leva a personagem de Lawrence ao subsolo, onde o sangue do assassinato acaba lhe mostrando uma porta escondida que leva a uma sala escura com uma fornalha de onde sai um sapo (inúmeras pragas e maldições bíblicas são representadas pelo sapo). Foi o sangue do assassinato que levou àquele lugar, que pode ser entendido como o inferno. Biblicamente falando, a definição de Inferno é “a ausência de Deus”. Pois a porta do Inferno surge quando Deus não está na casa e ele nunca vai lá, pelo menos até o final do filme.

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Raro momento de ira de Deus: expulsando Adão e Eva do Paraíso.

A partir daí, as pessoas se multiplicam. Os personagens, no entanto, não têm nome. Nos créditos do filme, são apresentados como conceitos ou arquétipos: “A Donzela”, “A Sussurradora”, “O Idiota”, “O Incompetente”, “O Promíscuo”, “O Preguiçoso”… A maioria deles, inclusive, é vinculada a pecados na cultura judaico-cristã. Entram na casa sem permissão, trazem comida, modificam a casa. Começa a ficar mais clara outra das metáforas de Aronofsky: as agressões e modificações na Terra feitas pelos seres humanos. Eles amam Deus, são inspirados por ele, mas não ligam para ela. De maneira ostensiva vemos isso quando um dos convidados pinta o teto da casa, mesmo com a contrariedade manifesta da mãe. A mãe, a dona da casa, é reprimida, inclusive, por Eva: “Cubra-se!”, como se ela estivesse inadequada na sua própria casa. Nenhum dos personagens a escuta, seja quando ela pede que não mexam na casa, seja quando ela chama a atenção do casal que estava no quarto dela (“Esse é o meu quarto!!” “Seu quarto… aham…”). Salta aos olhos, nesse momento do filme, um dos outros temas recorrentes no filme: a misoginia. A opinião da mulher (no caso a mãe vivida por Lawrence) não é levada a sério, nunca. Há inclusive um convidado inconveniente do velório que a assedia grosseiramente, tocando nela e ignorando as negativas dela. Quando fica claro que ela não vai ceder, de forma alguma, às investidas dele, ele a xinga de vagabunda e de uma série de outros impropérios, antes de ir embora. Se eu me senti mal vendo, imagino como deve ter sido para as mulheres (e quantas já não passaram por situações semelhantes?). As pessoas ignoram solenemente os apelos e avisos dela, inclusive os óbvios e recorrentes, como sobre a fragilidade da pia. Quando a pia quebra e a casa é inundada, todos são, enfim, expulsos. Inevitável lembrar do Dilúvio Universal.

A mãe engravida após uma briga e alguns beijos, sem que haja o sexo em si (se há, nós não vemos). A partir daí, a personagem múltipla de Lawrence ganha mais uma faceta. Se ela já era a Mãe Natureza e a Mãe Casa, passa a ser a Mãe propriamente dita e também, de certa forma, Maria. A partir da inspiração dada pelo Filho, Deus cria novamente, e o seu novo poema, cuja mensagem principal é sobre compartilhar, é escancaradamente o Novo Testamento. A partir daí o diretor acelera e os adoradores se tornam cada vez mais irracionais e fanáticos. A mensagem de amor e compartilhamento é usada como desculpa para que a casa seja roubada, pilhada, destruída de todas as formas. “Por que vocês estão fazendo isso??” pergunta desesperada a mãe para um personagem que arrancava pedaços do marco da porta. Ele responde “Para provar que estivemos aqui”. A mensagem do diretor sobre a questão ambiental fica mais clara e escancarada nesse momento. Mais uma vez a mãe apela, grita, reclama e protesta sem ser escutada. O Filho, enfim, nasce. E aí há um pequeno momento de tranquilidade, quando, trancados no quarto, o Pai, a Mãe e o Filho recebem os presentes dos adoradores. Nesse momento mais uma persona pode ser incorporada à personagem de Lawrence: ela é o Espírito Santo, completando a Santíssima Trindade. Num pequeno momento de descuido dela, ele toma o Filho do seu colo e o leva para ser adorado. Imediatamente ele é tomado pela turba e morto. Deus perdoa tudo e tem pena da dor das pessoas, mas não da dor da mãe. A comunhão está presente, de forma literal, com as pessoas provando a carne e o sangue do Filho morto. A passagem de tempo, nessa parte, fica fragmentada e vemos guerras acontecendo, um culto organizado florescendo e ninguém dando atenção ao sofrimento da mãe, que apanha de todas as formas enquanto Deus, benevolente, perdoa e tem pena, ao mesmo tempo em que é adorado. Enquanto tudo isso acontece, vemos barbaridades ocorrendo em nome Dele: a estruturação de cultos, a hierarquização de religiões, as brigas em função delas (há uma disputa literal pela posse física do poema), cenas de guerra, de canibalismo, de campos de concentração, de prisões de mulheres… enfim, há que se assistir o filme muitas vezes, para entender tudo que se passa nessa parte final. É muita coisa acontecendo muito rápido.

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mãe encontra o Inferno.

Agredida e vilipendiada, mãe decide terminar com tudo. E tudo termina com fogo, da mesma forma que começou. Ela desce até o inferno e abre as portas dele para acabar com o mundo. O instrumento que ela usa para dar fim ao mundo, o Apocalipse, é um isqueiro. É o fogo, como o de Prometeu, que vai limpar e purificar o mundo. Esse isqueiro, lembrem, foi trazido por Adão, o primeiro homem. É do homem (e especificamente de um vício do homem), portanto, que vem a faísca que vai terminar com o mundo. O mundo é consumido em chamas e enxofre e sobra apenas ele, Deus, e os restos dela. Nessa hora, como que se justificando, ele olha para ela e diz “Eu sou o que sou”. Se havia dúvida que ele era Deus, essa frase é textual. É Deus conversando com Moisés. Ela já havia dado tudo a ele, e, no entanto, ele pede mais. Pede a essência do amor dela. Ela dá. E o ciclo, dali, se reinicia. Tudo vai acontecer da mesma forma. Porque Deus não se importa com o sofrimento das pessoas, mas ele gosta da adoração. É isso o que ele quer, é disso que ele vai atrás.

Aronofsky, não é de hoje, não tem uma visão boa de Deus. Seu Deus é egoísta, vaidoso e egocêntrico. Em determinado momento, mãe acusa Deus: “Você nunca me amou! Você só amou a maneira como eu o amava!”. Ele não diz nada. Não diz porque ela tem razão: o Deus de Aronofsky preocupa-se em ser adorado, admirado, citado, louvado. Está disposto a tudo perdoar naqueles que o seguem e, em especial, admiram o seu trabalho. Nesse sentido, a visão do diretor/roteirista nos apresenta a mãe como uma segunda divindade (por várias vezes inclusive o próprio Deus a chama de “Deusa”, durante o filme), complementar e por vezes antagônica. Ela, que é a Natureza e a Casa, sofre em função da presença dos adoradores dele. O ciclo é interminável justamente por esse prazer mórbido que ele tem em ser adorado incondicionalmente.

A leitura do “alerta ecológico”, que já foi admitida publicamente por Aronofsky e Lawrence, também é muito clara: o filme é um alerta, também, sobre ignorarmos os sinais e apelos da Terra. É um manifesto ecologicamente correto contra o aquecimento global, as mudanças climáticas e as catástrofes ligadas a ele, que na visão do diretor e roteirista pode levar à própria extinção da espécie humana.

“mãe!” também pode ser um filme sobre o processo de criação artístico e sobre obsessão. Nesse sentido, Aronofsky dá sequência aos temas que já tratou em “Cisne Negro” e “O Lutador”, filmes sobre pessoas obstinadas que incessantemente buscam dar o melhor de si para atingir um ideal utópico.

O filme também pode ser visto como uma grande metáfora sobre relações. O casamento entre Deus e mãe é uma relação onde ele a sufoca. As necessidades dele se sobrepõem às dela naturalmente e a vemos se anular em nome do espaço dele, da criação dele, da obra dele, dos amigos dele, dos prazeres dele. Parece com alguma situação que você conhece? Pois é. Nesse sentido, há também uma leitura que bate na tecla da opressão de gênero: a mãe pede ajuda a todo momento e é ignorada. Fala, repete, ninguém dá bola. Apanha, é agredida, é xingada, nada acontece. Quando, enfim, ela reage… é exagerada. Acabar com o mundo, onde já se viu?

“mãe!”, enfim, é um filme sobre muitas coisas. Não é um filme fácil, sem sombra de dúvidas. Passa longe de ser um filme agradável: minha sensação, ao final da sessão, era de ter tomado uma surra na poltrona do cinema. Muita coisa fica sem explicação. O que é o líquido amarelo? Quem é a editora? Por que os personagens nos créditos não têm nomes? Terminei o filme exausto e completamente tenso. O terço final, em especial, pode ser pesado para os mais sensíveis. Mas, para mim, foi uma experiência absolutamente gratificante. Perturbadora. Maravilhosa. E horrível, também.

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