Da história única

por Brunna Stock

Ao discutir a História da Matemática como metodologia de ensino, acabo por ter que falar de história – ah, essa arte de falar sobre coisas das quais sei muito pouco. Certa vez, um professor de história sensacional elaborou e ministrou comigo essa aula e decidimos discutir a relação de poder presente no discurso histórico a partir do vídeo “O perigo da história única”, aproveitando para dar visibilidade a essa palestrante e incrível escritora Chimamanda Adichie.

O vídeo fala de diversas situações vivenciadas por Adichie em que as pessoas (ela, inclusive) se basearam em uma única história sobre alguém para definir quem esse alguém é. É algo como estereótipos, mas o enfoque é na construção deles a partir da história desse alguém – e poderia ser estendido para lugares, experiências, etc. Sempre que vejo esse vídeo me lembro do episódio do Simpsons no Brasil, o seriado mais baseado em pré-conceitos que existe, onde a TV brasileira apresenta um programa educativo estrelado por uma mulher com adorno de rainha de bateria e outras figurantes que se esfregam no alfabeto. Interessante para refletirmos sobre o estereótipo da mulher brasileira (em especial, a mulher negra) hipersexualizada, mas isso é papo para outra hora.

Com certeza vi esse vídeo da Adichie mais de dez vezes e, em todas, eu me pego refletindo sobre os momentos em que acreditei em apenas uma versão da história, nos julgamentos realizados e ideias pré-concebidas. Me envergonho de todas. Mas sabe quando algo acaba ficando tão presente nas reflexões que começa a se tornar meio óbvio e você começa a ficar meio bolado com quem não pensa sobre isso? Pois é. Eu estou nesse ponto. E aí as pessoas acreditarem numa história única sobre qualquer coisa começa a me irritar real oficial.

Penso que isso é, em parte, reflexo das relações desta modernidade e o que chamamos de era da informação. Pode parecer contraditório, porque a ideia de muita informação justamente iria contra o princípio de uma única fonte e uma única história. Porém, o que aprendi até agora sobre as relações atuais, é que todxs falam; mas poucxs escutam. Maior exemplo disso, a meu ver, é o Twitter, onde as pessoas falam sem parar sobre as coisas mais banais do mundo para esse ouvinte tão especial que é todos e ninguém ao mesmo tempo – e várias verdades são tiradas daí.

Mas não é somente nessa rede social que isso acontece. Esses dias eu postei uma foto com uma amiga no Instagram escrito “crush” porque ela é meu mozão mesmo, hihi. Noooossa, altos comentários e perguntas se ela era minha namorada. Mas não para por aí: poucos dias depois postei no Facebook uma foto com um amigo que foi meu companheiro, e novos comentários surgiram perguntando se estávamos juntos novamente. No dia SEGUINTE, postei foto de uma amiga comigo, e mais comentários foram feitos. Não sei se me sinto lisonjeada por acharem que eu tenho tantos namorados e namoradas ou se deveria me preocupar de me acharem promíscua (nem vou dormir hoje de tanta preocupação). Mas fiquei viajando sobre isso e a ideia de fala e escuta. Foi criada uma narrativa para aquele contexto baseada na vivência dxs leitorxs e no que elxs sabem de mim. Menos de 10% de quem viu a foto veio perguntar sobre ela, apenas espalharam o que achavam que ela representava.

Há pano pra manga para discutir sobre exposição na internet, sobre se importar com opinião dxs outrxs… sobre mil coisas. Mas, sem sombra de dúvida, também tem para questionarmos o nosso lugar de fala na contação de histórias – as nossas e as dxs outrxs. E no lugar de ouvintes também. E se tem alguma coisa que a Adichie me ensinou é que uma história sobre alguém é sempre incompleta e repleta de estereótipos.

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