Brian Michael Bendis saindo da Marvel e indo para a DC!!

                No final de 2017 o mundo dos quadrinhos foi atingido por uma bomba: Brian Michael Bendis, um dos roteiristas mais importantes da Marvel, estava terminando seu contrato de exclusividade com a Casa das Ideias e assinou para os próximos anos um contrato com a DC. No mundo do futebol, seria o equivalente ao Messi anunciar que está indo para o Real Madri ou o Cristiano Ronaldo assinar contrato com o Barcelona. Bendis não só é um bom escritor: ele foi o responsável por toda a reestruturação da Marvel no século XXI. Suas ideias (as que acertaram e as que erraram) conduziram a uma Marvel toda nova e diferente. A importância do escritor de Ohio era tanta que, em determinado momento, o Editor-Chefe da Marvel, Joe Quesada, disse que era proibido que Bendis e Mark Millar entrassem juntos no mesmo avião.  Desde a sua chegada, em 2000, até hoje, Bendis se tornou o principal roteirista da Marvel e pôs a mão em todos os títulos importantes da editora. Criou personagens importantes (Jessica Jones, Miles Morales), resgatou e popularizou outros (Luke Cage, Jessica Drew, O Capuz) e modificou profundamente alguns (Novíssimos X-Men). A importância de Bendis na editora (e nos quadrinhos) durante o século XXI é tão grande que sites sérios comparam a ida dele para a DC com a de Jack “The King” Kirby, que fez o mesmo caminho nos anos 70.

                Se estamos nos despedindo de Bendis na Marvel, nada melhor então do que um apanhado do que ele fez de melhor na editora. Vamos a uma lista para relembrar e nos preparar para o que o careca vai aprontar na DC.

Homem-Aranha Ultimate (2000 – 2013)

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                O primeiro projeto de Bendis na Marvel foi um balão de ensaio: uma minissérie para recontar a origem do Homem-Aranha de forma mais moderna. O projeto deu tão certo que a minissérie se tornou uma série regular que durou mais de 10 anos. Na verdade, o projeto deu TÃO certo que tivemos versões Ultimate dos X-Men, do Quarteto Fantástico, dos Vingadores e de quase todos os personagens da Marvel, dando origem ao Universo Ultimate, talvez a grande jogada da Marvel em muito tempo. Sabe o universo cinematográfico da Marvel que você tanto gosta? Pois é, ele saiu daqui. A base dele é o Universo Ultimate.

Voltando ao Ultimate Homem-Aranha, o Peter Parker de Bendis cativou os adolescentes de forma muito semelhante a que Stan Lee fez nos anos 1960. Enquanto no universo Marvel tradicional (o 616, segundo Neil Gaiman) Parker se formou, casou, teve filha e se tornou um adulto, o Peter de Bendis continuava na escola. Seus dramas pessoais eram não decepcionar a Tia May e tentar impressionar a vizinha, Mary Jane Watson. Enquanto estudava para provas e enfrentava bullying na escola, tinha que se deparar com o Duende Verde, o Doutor Octopus ou o Abutre (e sempre com Shocker, que se tornou uma piada recorrente de Bendis).

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Mark Baglay inspira-se no clássico Homem-Aranha magricela de Steve Ditko e Todd McFarlane.

          A arte de Mark Bagley casou brilhantemente com o argumento de Bendis e a parceria deles por 111 edições consecutivas se tornou a mais longeva da história da Marvel (batendo a seminal parceria Stan Lee – Jack Kirby em Quarteto Fantástico, que durou 102 edições). Os diálogos de Bendis e o lápis de Bagley marcaram o design dos personagens e as últimas versões cinematográficas do Homem-Aranha (Andrew Garfield e Tom Holland) são referências claras à essa versão Ultimate.

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A morte do ultimate Peter Parker

          Bendis voltou ao Homem-Aranha Ultimate para matar Peter Parker. A história do herói tem, portanto, início meio e fim. Além da coragem de matar o principal ícone da Marvel (mesmo que na versão Ultimate), Bendis criou seu sucessor: o jovem Miles Morales. Num século XXI onde os debates sobre representatividade se tornaram tão importantes, o Homem-Aranha de Bendis é um menino negro e porto-riquenho. Não dá para dizer que ele não tem coragem. Morales se tornou um personagem tão importante que quando a Marvel acabou com todos os seus universos paralelos, em 2015, Morales foi um dos personagens do universo Ultimate que sobreviveu e hoje está no universo “principal” da Marvel, sendo bem aceito e um dos heróis mais queridos da editora.

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Miles Morales: um dos importantes personagens criados por Bendis.

Demolidor (2001 – 2006)

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                O Demolidor, uma das criações clássicas de Stan Lee, foi o primeiro título regular da Casa das Ideias entregue a Bendis. O Homem Sem Medo vinha de um longo período bastante irregular e havia quem dissesse que era um personagem de um autor só, que apenas Frank Miller sabia escrever o advogado cego da Cozinha do Inferno.  Bendis assumiu o título em 2001 e recolocou Matt Murdock na primeira linha de heróis da Marvel. O careca mostrou em Demolidor muito daquilo que o faria ser respeitado e conhecido: a capacidade de ao mesmo tempo modificar personagens modernizando-os e respeitar profundamente o cânone e a mitologia do personagem. O run de Bendis no Demolidor tem Mary Typhoid, tem Mercenário, tem Rei do Crime, tem Elektra, tem Foggy, tem Tentáculo. Mas tem gente nova, coisas novas e pontos de vista novos e personagens novos, como Mila Donovan a namorada cega de Matt Murdock. O trabalho de Bendis no Demolidor atingiu altíssimo nível de excelência, entre outros motivos, pela parceria com o artista búlgaro Alex Maleev, cujo traço único caiu como uma luva para retratar o Homem Sem Medo. O Demolidor rendeu a Bendis dois prêmios Eisner (o Oscar dos Quadrinhos) e deixou tanta coisa rica para ser trabalhada que tanto Ed Brubaker quando Mark Waid, os escritores que o sucederam, também foram bastante premiados nas suas passagens pelo título.

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                Se você quer conhecer mais sobre o Demolidor de Bendis, a Panini está publicando a série completa em caprichados volumes encadernados. O primeiro deles é “Revelado”, o arco de estreia de Bendis onde ele decide tornar pública a identidade secreta do Demolidor. O segundo é “O Rei da Cozinha do Inferno“, quando Murdock decide que se não pode acabar com o crime em Hell’s Kitchen então ele vai controlá-lo. O terceiro (e, na minha opinião, o melhor) volume é “Decálogo“, no qual, a partir da simbologia católica (um dos elementos importantes do Demolidor), Bendis analisa as consequências das ações do personagem na vida das pessoas comuns.

                Sobre o herói cego da Marvel, temos um texto bem completo aqui e aqui.

Alias (2001 – 2004)

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                Nos anos 90 a DC mudou o mercado dos quadrinhos criando o selo adulto “Vertigo”, onde a editora Karen Berger foi responsável por uma revolução ao endossar títulos autorais, criativos e ousados como Sandman (Neil Gaiman), Monstro do Pântano (Allan Moore), Os Invisíveis (Grant Morrison), Preacher (Garth Ennis) e Transmetropolitan (Warren Ellis), que ajudaram a mudar um pouco a linguagem dos quadrinhos e revelaram toda uma nova geração de autores e desenhistas. A Marvel, é claro, não ficou (muito) atrás e lançou o selo “Max”, com a mesma premissa.  O título de lançamento do selo foi “Alias”, sob responsabilidade de Bendis. Alias era uma história de detetive noir estrelada por uma personagem nova, criada pelo careca: Jessica Jones. A anti-heroína era uma mulher forte, mas cheia de defeitos. Havia deixado para trás o colante por motivos que não nos entendíamos. Jessica bebia (muito), falava palavrão e descontava suas frustrações em sexo casual e agressivo. A história era derrota atrás de derrota, de forma que muitos de nós nos identificávamos (e não era pouco). O estilo noir da história casava divinamente com a arte de Michael Gaydos (as capas de Alias são das mais lindas que eu já vi, até hoje), bem diferente dos quadrinhos mainstream tradicionais.

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                Alias deu origem, quinze anos depois, à série “Jessica Jones”, do Netflix, que iniciou o universo urbano das séries Marvel que hoje abundam no serviço de streaming. A personagem criada por Bendis se tornou uma das mais conhecidas (e queridas) do universo Marvel, em função da série. Além disso, a passagem de Bendis pelo título e a série serviram também para redefinir e atualizar um antigo vilão de terceiro nível da Marvel, o Homem Púrpura (Zebediah Killgrave, criação do próprio Stan Lee), que deixou de ser um bucha de canhão para se tornar verdadeiramente aterrorizador.

Os Vingadores (2004 – 2013)

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Os Novos (e Improváveis) Vingadores de Bendis, em sua primeira versão.

                “Os Maiores Heróis da Terra”: os Vingadores sempre usaram esse título, mas nunca conseguiram ser essa equipe. No começo do século XXI eram a terceira equipe da Marvel, em nível de importância (atrás dos X-Men e do Quarteto Fantástico). Bendis recebeu carta branca para fazer o que quisesse com o título, o que mostra como ele não vinha bem. Em seu primeiro arco, “A Queda”, Bendis acaba com os Vingadores. Não só termina com o grupo, ele destrói, dilacera o grupo. Se a morte do Valete de Copas não foi tão importante, não se pode dizer o mesmo do Gavião Arqueiro. Ou ainda do Visão, rasgado ao meio por uma Mulher Hulk enfurecida. Nesse arco, Bendis passeou por toda a mitologia dos Vingadores, matou personagens clássicos, destruiu a mansão e o grande vilão por trás de tudo não era Ultron, Kang ou os Mestres do Terror: era a Feiticeira Escarlate, cobrando do grupo seus pecados pretéritos.

                Uma vez “limpo o terreno”, Bendis podia começar seus próprios Vingadores. A primeira formação escolhida pelo autor foi bastante polêmica. Havia os clássicos (Homem de Ferro, Capitão América), mas Bendis incluiu também os dois heróis mais populares da editora, o Homem Aranha e Wolverine (Ninguém, NINGUÉM achava que isso podia dar certo). Completavam o time de improváveis: a ninja Echo (usando o manto de Ronin), o herói urbano Luke Cage (que ele já havia usado em Alias), a clássica e esquecida Mulher Aranha (Jessica Drew) e o Sentinela, um personagem MUITO overpower (com o poder de mil sóis explodindo) que na verdade, até então, sequer fazia parte do universo Marvel regular.

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                Era improvável? Era. Era diferente? Era. Tinha tudo para dar errado? Tinha. Deu errado? Não. Deu certo. Deu MUITO certo. Bendis conduziu os Vingadores para que eles se tornassem o que sempre deveriam ter sido: a maior, mais forte e mais respeitada equipe de heróis da Marvel. Mais do que isso, ela se tornou também a mais LUCRATIVA equipe da Casa das Ideias. Jessica Drew, a Mulher Aranha, foi de eterna coadjuvante a um dos pivôs das principais tramas do Universo Marvel. Luke Cage não só se tornou um vingador, mas se tornou um dos símbolos do que é ser um vingador, tendo sido inclusive líder da equipe por um bom tempo.

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Uma das características dos diálogos de Bendis: o não se levar tão a sério

                O run de Bendis pelos Vingadores caracterizou-se pela passagem de grandes eventos (Guerra Civil, Invasão Secreta, Dinastia M, Reinado Sombrio, O Cerco, Era de Ultron), alguns menos regulares que outros. Como mandava a tradição em grandes equipes de heróis, chegadas e partidas eram comuns. Vimos gente antiga voltando (Miss Marvel, Magnum, Gavião Arqueiro…) e gente nova chegando (Doutor Estranho, Coisa, Doutor Voodoo, Punho de Ferro). Os Vingadores foram de destruídos a quase polícia do mundo até serem banidos. O antigo Duende Verde, Norman Osborn, era um vilão do Homem Aranha, mas durante o run de Bendis tornou-se um nêmese da equipe. Uma outra ideia de Bendis no seu tempo dos Vingadores que foi bem aproveitada foi o conceito dos Ilumminati, um grupo de heróis que tomava decisões drásticas sobre assuntos importantíssimos, guiando os outros heróis sem que eles percebessem. Ele também criou os Vingadores Sombrios, vilões que durante algum tempo se passaram pelos Vingadores.

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Jessica Jones tinha uma quedinha por Peter Parker…
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… e Luke Cage não gostou nada disso.

                Hoje não há dúvida que Os Vingadores são a maior franquia de heróis do mundo, e um dos responsáveis por isso é Brian Michael Bendis.

O Homem de Ferro (2015 – 1018)

                A última grande passagem de Bendis pela Marvel está se encerrando agora, na sua saída da editora. O que fazer com Tony Stark depois dele ter se tornado o centro do universo heroico Marvel? Acabar com ele, é claro. Bendis assumiu os títulos do vingador-playboy-bilionário-filantropista e mexeu em muita coisa. Mudou o passado de Tony, fazendo com que a família com quem ele classicamente tem problemas (Arno e Maria) passasse a ser uma família adotiva. A comunidade heroica acabou rachada na Segunda Guerra Civil e o lado de Tony perdeu, o que acabou com ele sumindo do mapa e sendo substituído. Na verdade substituído DUAS vezes. Em Infamous Iron Man quem assume o manto de Homem de Ferro é nada mais, nada menos que Victor von Doom, o Doutor Destino. A sincera busca de Destino por redenção fica divertidíssima de acompanhar em função da personalidade egocêntrica e pretensiosa do personagem ainda estar ali.

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                Enquanto isso, em Invincible Iron Man uma adolescente negra de 15 anos, Riri Williams, constrói sua própria armadura e torna-se Iron Heart. O Homem de Ferro, um dos mais icônicos personagens da Marvel no século XXI, passou a ser uma menina negra. Pois então, Bendis é um dos nomes sobre os quais obrigatoriamente temos de falar quando falamos de representatividade nos quadrinhos.

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Riri WIlliams, mais uma das criações de Bendis.

                Enfim, por mais que nem tudo que ele fez em 18 anos na DC seja maravilhoso (seu run nos Guardiões da Galáxia é bem fraquinho e seu tempo nos X-Men é, no mínimo, polêmico), a DC está com sangue novo e estamos todos muito ansiosos para ver o que o careca vai fazer com Superman, Batman e cia.

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Durante anos, Bendis usou como piada um maluco qualquer gritando coisas nonsense em delegacias de polícia. Na sua última edição de Jessica Jones ele se despede colocando ele mesmo essa situação…

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