Dos relacionamentos abertos

por Brunna Stock

Eu vivi nos últimos 11 anos apenas relacionamentos abertos. Ufa, que alívio! É gostoso poder dizer isso e não ouvir de volta o tradicional “Como assim?” ou “O que isso quer dizer?”. Toda vez que alguém me pergunta isso me dá vontade de questionar como funciona o relacionamento monogâmico dela, como isso foi decidido entre o casal e se o parceiro ou a parceira aceitou de boa – que são as coisas que mais escuto. É quase como quando alguém te pergunta quando que você percebeu que era gay e dá vontade de perguntar quando que a pessoa descobriu que era hétero, como foi contar pros pais dela, essas coisas. Mas, num mundo em que relacionamentos abertos são tidos como “incomuns” (e isso é altamente questionável, pois, vivendo um, você descobre que tem muuuuuito mais gente em relacionamento aberto do que parece), eu prefiro dar explicações para não deixar a imaginação das pessoas ir muito além.

Um relacionamento aberto é um relacionamento que não é necessariamente monogâmico. Fim. Essa é a única cláusula básica. O resto da brincadeira vocês inventam, vão ser felizes, bjs de luz. Tem gente que tem relacionamento aberto e fica aaaaanos sem ficar com outra pessoa, tem os que ficam sempre, tem os que ficam só quando o parceiro ou a parceira está junto, tem poliamor, tem um monte de coisa – e não há uma regra do que é certo ou errado aqui, mas do que serve ou não a quem está vivendo isso. O que acho interessante desse pensar os termos de um relacionamento aberto é que você faz algo que não se costuma fazer em nenhum relacionamento, e que, a meu ver, é super necessário. Não que você vai chegar pra pessoinha com um contrato com cláusulas e malditas letras miúdas, mas isso pode ser discutido e construído à medida que se vai vivendo. O ponto é bem este: processo, nada está dado a priori (o que, em geral, é a base de um relacionamento monogâmico).

Note que eu tenho problemas com a premissa da definição do relacionamento monogâmico, mas não com ele em si. Gente, cada um vai viver sua vida como quiser! Não acho que relacionamentos abertos são para pessoas evoluídas como já ouvi por aí, algo tipo “calma queridinha, um dia você vai ser desconstruidona e vai chegar lá”. Apenas pare. Inclusive tem uma cambada de gente usando esse discurso de evolução para se colocar em uma posição de “ditador(a) de regras do relacionamento”, não fazendo nenhuma discussão com o(a) parceiro(a). Palha. Ahhh , sim… não vamos esquecer o esquerdomacho desconstruidão que diz que amor livre é lindo, mas só se ele pega todas as minas e a namorada dele não. Se ele beija todo mundo e a namorada dele só fica com meninas, mas, com outro homem, não. Isso não tem nada a ver com relacionamento aberto, a pessoa que é idiota mesmo. Então, mores, relacionamento aberto não é sinônimo de algo incrível e não é pra todo mundo, você que tem que decidir se, com essa(s) pessoa(s) específica(s) você quer viver uma relação nos termos tal e tal. Conversem, essa é a dica.

Maaaas, toda essa introdução foi pra relatar uma história que eu ouvi esses dias de um cara que falava que estava namorando uma menina super bacana, linda, querida, massa. Relacionamento monogâmico, ela é o amor da vida dele. THE ONE. Aí ele contou que ficou com outra esses tempos e eu fiz uma expressão de “q?”. Nisso vem aquele sorrisinho que dá vontade de esfregar a cara da pessoa no asfalto acompanhado de um “Ahhh, sabe como é, né?… a carne é fraca… sabe como homem é”. Sinceramente, se eu fosse homem, sentiria vergonha desse exemplar da minha espécie. E pausa para observar o machismo básico da afirmação: homem é que faz essas coisas; mulher, não. Se a mulher fizer, é vagabunda, não merece respeito. Se o homem faz, é pegador, é da natureza. Tenho certeza que a fala desse cara não contempla todos os homens do mundo e não é a questão do machismo que me interessa neste exato momento.

Justamente por essa história não ser a primeira que eu escuto de pessoas que têm um relacionamento monogâmico e ficam com outras pessoas que o que eu realmente – REALMENTE – não consigo entender é: como que um relacionamento aberto pode ser tratado como a coisa mais absurda da face da Terra e um relacionamento monogâmico onde alguém trai é tão naturalizado? É explicado biologicamente até, pois “a carne é fraca”. ATA.

O status de uma relação é algo construído socialmente, não existe uma tábua dos dez mandamentos dizendo como cada um tem que viver o seu e tudo mais. Então quem sabe a gente para de aceitar as definições (de tudo, eu diria) como se elas não tivessem sido por nós construídas e nos tornamos autores e autoras dessa história? Ouso dizer que talvez as definições nem tenham mais espaço em alguns contextos, mas isso é papo para outra hora. Mas, dentro da conjuntura atual de atribuir nomes para nossa identidade, relações, etc., temos que analisar o que essa definição quer dizer: monogâmico tem “mono” no nome, veja só. Se essa configuração não te serve, blz. Crie outra! Só não pode duas coisas: 1) vomitar regra do que é um relacionamento ideal; reflita e crie a sua forma de viver isso com quem quer que seja. E 2) seja monogâmico, aberto, livre, poliamor ou whatever: permaneça fiel à definição. Pelo menos a ela, já que às pessoas muitos não estão sendo, né nom?

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