Cinema

Com Amor, Simon

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O pensador russo Mikail Bakhtin criou o conceito de circularidade cultural. Resumidamente, o pensador afirma que um elemento influencia a cultura ao mesmo tempo em que é influenciado por ela. Um filme reflete sempre o espírito de uma época. Da mesma forma, ele ajuda a moldá-lo. Na década de 1980 o cineasta estadunidense John Hughes retratou uma geração em filmes seminais como “Gatinhas e Gatões” (Sixteen Candles, 1984), “A Garota de Rosa-Shocking” (Pretty in Pink, 1986) e principalmente “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) e o cada vez mais cult “Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, 1985). Os filmes de Hughes (e suas infinitas cópias e imitações da época) deram voz aos adolescentes e inauguraram um novo (sub)gênero, o filme de adolescente onde o jovem ao mesmo tempo se enxerga e se espelha. De lá para cá foram feitas coisas boas e ruins nesse departamento. Os anos 90 viraram um festival de filmes teen, para o bem e para o mal: “Singles” (Cameron Crowe, 1992), “Kids” (Larry Clark, 199%), “Cry-Baby” (John Waters, 1990), “Diários de Um Adolescente” (The Basketball Diaries, Scott Kalvert, 1995), “10 Coisas que Eu Odeio em Você” (10 Things I Hate About You, Gill Junger, 1999), “Segundas Intenções” (Cruel Intentions, Roger Kumble, 1999), “As Patricinhas de Beverly Hills” (Clueless, Amy Heckerling, 1995)… a lista vai ao infinito, com filmes bons (outros, nem tanto), grandes diretores e astros famosos e outros que seriam, mas não foram, enfim. O século XXI também tem sua cota, que vai desde “Meninas Malvadas” (Mean Girls, Mark Waters, 2004) até “As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower, Stephen Chbosky, 2012). Todos eles, TODOS eles, são espelhos e releituras dos filmes de Hughes.

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John Hughes e os filmes que criaram um gênero

Mas afinal, por que ele foi tão diferente? Porque Hughes deu voz aos adolescentes. Essa foi a grande novidade dos filmes dele. Os adolescentes deixaram de ser um estereótipo de como eram vistos por adultos e passaram a ser sujeitos tridimensionais, com angústias, medos e contradições típicos a essa época da vida. Mais que dar voz aos adolescentes, Hughes deu voz às meninas. Em vários dos seus filmes as meninas eram as protagonistas e tinham a fala, o que muitas vezes não acontece no cinema ainda hoje. Quem fez uma belíssima reflexão sobre os filmes de Hughes, sua importância e as problematizações hoje necessárias para vê-los foi a atriz-musa do diretor, Molly Ringwald, num artigo da New Yorker que você pode ler AQUI.

Mas por que falar sobre John Hughes agora? Porque eu vi “Com Amor, Simon” (Love, Simon, Greg Berlanti, 2018). O filme é mais um teen movie da escola John Hughes, como tantos que Hollywood industrialmente lança todo ano. Um garoto, Simon (Nick Robinson), enfrenta as agruras e desafios do ensino médio norte-americano, o High School. Simon tem pais normais (Josh Duhamel, da franquia Transformers, e Jennifer Garner, a Elektra do cinema), uma irmã e um cachorro. Tem uma turma de bons amigos (Katherine Langford, Alexandra Shipp e Jorge Lendenborg Jr). Planeja ir ao show do Radiohead num futuro próximo. Uma vida adolescente normal, enfim. O que chama a atenção então? O fato de Nick ser gay. Mais do que isso: “Com Amor, Simon” não é um filme sobre homossexualidade. É um filme adolescente onde o protagonista é gay. É isso. O conflito do filme não tem relação com a orientação sexual de Nick, mas com suas descobertas e questões relativas à adolescência. No filme há paixões platônicas, paixões não correspondidas, triângulos amorosos, sites anônimos (e quem lida com adolescentes hoje em dia sabe O QUANTO isso está presente no dia a dia deles…) e tudo mais que os filmes de adolescentes devem ter. O roteiro, por vezes previsível, nos permite empatizar bastante com os personagens e nos faz torcer por eles. O final pode não ser apoteótico como o de “As Vantagens de Ser Invisível”, mas também nos faz sair da sessão mais leves e sorrindo.

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Nick no colégio com os amigos e em casa com a família. Enfim, um adolescente.

“Com Amor, Simon” não é “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017) e sem dúvida é, artisticamente falando, muito menos filme. Mas junta-se a ele na importante questão da representatividade: em ambos os filmes encontramos adolescentes não-heterossexuais passando pelas questões típicas dessa fase do desenvolvimento. Diferente de outros filmes, a homossexualidade não é A questão. Não há briga com os pais, não há rejeição. E somos TÃO condicionados que passamos o filme inteiro (nos dois casos) esperando que aconteça. Molly Ringwald, naquele artigo que citei, fala da importância da representatividade lá nos filmes dos anos 80. Nada melhor, portanto, que naturalmente ela seja ampliada e os jovens tenham chance de se ver no cinema, se identificar e ter a certeza de que não são anormais, não são “diferentes”: são jovens, na dor e delícia de ser jovem. Apresentar o jovem LGBTQ+ como protagonista de filmes que não tratam apenas dessa questão, mas que evidenciam o que é ser jovem, pode ajudar a transformar a nossa sociedade num lugar mais justo e menos cruel. Enfim, a sociedade influenciando os filmes e os filmes ajudando a mudar a sociedade.

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