Música

O piano e o silêncio: as ferramentas de Jamie Saft e Kaada

Chegamos na metade de 2018 e minha lista de preferidos do ano já vai tomando forma. Neste primeiro semestre, percebi que dois dos meus álbuns favoritos têm alguns elementos em comum. São discos silenciosos, com composições instrumentais conduzidas pelo mesmo instrumento: o piano.

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Jamie Saft – Solo a Genova

O nova-iorquino Jamie Saft é um dos meus pianistas preferidos. Seus discos vão do experimental ao reggae, do jazz ao rock. Ele já gravou belos álbuns ao lado de artistas como John Zorn, Iggy Pop e Mike Patton. Mas, em seu novo lançamento, Saft resolveu voar solo.

Acompanhado apenas de seu piano, o músico registrou a performance de algumas de suas canções favoritas em um show em Gênova na Itália. Como não poderia deixar de ser, a seleção é tão eclética quanto o pianista. O jazz aparece representando nas covers de “Naima” de John Coltrane e “Blue in Green” de Miles Davis e Bill Evans. O soul aparece nas versões “The Making of You” de Curtis Mayfield e “Overjoyed” de Stevie Wonder, uma das mais bacanas do disco.

Fã de carteirinha de Bob Dylan, Jamie Saft não poderia deixar o mestre de fora dessa seleção, portanto duas músicas foram incluídas, “Po’ Boy” e “Restless Farewell”. Ainda dentro do folk, a cantora Joni Mitchell é representada em “Blue Motel Room”. Apesar de também saber tocar violão, o músico optou por fazer todas as versões deste disco no piano, o que torna essas interpretações ainda mais inusitadas. Mas a versão mais inesperada é, sem sombra de dúvidas, a da clássica “Sharp Dressed Man” do ZZ Top, de quem Saft pegou, além da inspiração musical, o característico rosto hirsuto.


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Kaada – Closing Statements

Em seu novo disco, o norueguês John Erik Kaada compôs 11 músicas centrado em um mesmo tema: a morte. Os títulos das faixas são fragmentos de frases ditas por pessoas antes de falecer. Poderia ser uma seleção sombria de canções, mas o tom que o compositor encontrou é de serenidade.

Usando sua experiência como compositor de filmes, Kaada criou uma trilha sonora para o último adeus. “It Must Have Been the Coffee” inicia os trabalhos com piano minimalista, coro a la Ennio Morricone e um sutil arranjo de cordas. “Farewell” é facinho uma das músicas que mais escutei neste ano e explora uma melodia circular, que remete ao ciclo da vida. Outra melodia que chama atenção é a da faixa “Everything Is an Illusion” que o músico revelou ser baseada no bater de asas dos pássaros.

Para Kaada, a mensagem do álbum é que temos que aprender a escutar uns aos outros durante a vida e não apenas quando já é tarde demais. O valor que damos às últimas palavras de alguém tem mais a ver com o fato de que sabemos que nunca mais veremos a pessoa do que por alguma revelação grandiosa final. “Eu temo que a gente esteja vivendo em um ritmo acelerado demais”, declarou o músico, “é importante procurar aqueles momentos na vida em que tudo para”.

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