Literatura

A história

História_P2
imagem: José Calimero

Não te ouço aqui de dentro.
Sai!
Não dá.
Por quê?
Tô presa
Presa como?
É difícil explicar.
Tenta.
Na verdade não é que é difícil, é constrangedor.
Como assim?
É que fui eu mesma que me prendi.
Se trancou sem querer?
Não, fui me deixando…
Muda de ideia, dá tempo, sempre dá.
Eu admiro o seu otimismo.
Meu avô dizia que só não há remédio pra morte.
E ele morreu de quê?
Morreu de velho, mas minha mãe dizia que viver de remédio não era mais viver, então ele morreu muito antes, segundo minha mãe.
Eu concordaria com ela, se não estivesse aqui dentro.
Como assim?
Aqui dentro eu cresci ouvindo versões de quem eu deveria ser, e de qual caixa cada um a minha volta pertencia.
Caixa?
Sim, e uma vez dentro delas ouvimos histórias com uma única versão que são repetidas centenas de milhares de vezes.
De quem a história conta?
De mim, de você, de todas as coisas.
Você não está exagerando? Aqui de fora parece que é você quem não quer sair.
Acredite, o que parece não é o que é. Aprendi isso aqui dentro.
E eu, o que eu faço? Te deixo?
Mais que isso, você corre, corre pra bem longe de mim, só leve com você as histórias sem certo e errado. E no seu caminho vá colhendo outras, até decidir fincar pé e criar suas próprias histórias.

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