Literatura

Eu deveria ser, mas eu sou

Eu deveria ser, mas eu sou_P2
imagem: José Calimero

Quando eu era pequena, eu não ouvia comandos, ouvia histórias de quem eu era e de quem eu deveria ser. Havia limites para quem eu era e poderia ser, e eles eram dados pelas histórias daqueles e daquelas que viveram antes de mim, e que viviam ao meu redor.

O som da infinita repetição de quem eu era e deveria ser abafava a vozinha, ainda tímida, que sussurrava:

– Você é, você pode ser.

Por muito tempo não tive ouvidos para ouvi-la. Foi só quando todos os meus sentidos se voltaram para dentro que eu comecei o caminho inverso, escavando para fora de mim quem eu não era e não queria ser. Tive o cuidado de levantar as camadas uma a uma e de arremessá-las pela janela. Ao  fazê-lo, a consciência de estar utilizando minha força para voltar, ao invés de ir, para redescobrir, ao invés de descobrir, crescia.

– Você é, você pode ser.

Tivesse eu sido exposta a múltiplas histórias de seres múltiplos, infinitamente simples em sua complexidade; não contidos em nenhuma descrição normativa feita pelo Homem em nome de qualquer deus, e, hoje, o tempo me seria menos caro.

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