Comportamento

Do Tinder

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imagem: Cassiano Rodka

Uma das máximas do universo é: entrarás em qualquer sala de profes e encontrarás uma revista da Avon. OK, pode ser Natura, MaryKay ou qualquer uma dessas que mostra os cosméticos e até produtos de casa ou livros – nenhum sentido. Você já deve ter visto alguma dessas e a história é sempre a mesma, que ilustrarei em quatro momentos. Primeiro, a ilusão: “Uau, deve ter um monte de coisa interessante! Que perdição!”; segundo, a decepção: “Não gostei… não gostei… é, legal…”; terceiro, o interesse: “Humm esse batom parece bom, vou ler a descrição”; por fim, o quarto momento – resignação: “Tá, até que vale pelo preço. Vamos comprar pra ver qual é”. Bem-vindxs ao Tinder.

O Tinder é exatamente isso, só que com seres humanos. Você baixa um aplicativo que é, basicamente, um catálogo de gente: algumas fotos, breve descrição (quase sempre lotada de emojis e informações sobre signos ou uma frase “de impacto”) e eras isso. Algumas pessoas conectam com o Instagram ou com o Spotify para impressionar com aquelas fotos de viagem do #tbt ou pra ter uma musiquinha bacana para começar assunto. Se a pessoinha te interessa, você dá um like. Se ela não der like quando você aparecer no catálogo dela, nada acontece e ela nunca fica sabendo do seu interesse (ufa!); se ela também dá like em você, AE AE AE vocês têm um match.

Eu entrei nesse aplicativo para beijar pessoas – aham, lida com isso. Aqui as coisas começam a complicar porque, mesmo ele sendo um catálogo pra todo mundo, a forma que cada um usa é diferente. Eu, por exemplo, nem leio o que as pinta colocam lá: vejo a primeira fotinho e, se achei interessante, vou pra próxima; se aparentemente me atraiu, vou pra descrição ver se tem algo horrível tipo #bolsonaro2018 que eliminaria x candidatx. Não tendo, blz: like. Meu modus operandi só muda quando encontro alguém conhecido, quando ou dou o like direto sem nem olhar nada ou já passo adiante saio correndo deus me livre nem vi. Pra complicar mais, é claro que, como em um bar ou em uma festa, têm pessoas com objetivos diferentes. Tem quem só queira dar um UP na autoestima recebendo likes e se sentindo desejadx, e tem quem queira trolar a galera com perfil falso. Tem altos perfis de casal procurando ménage e perfil de grupos que buscam amigues. Tem tudo. Microcosmos da sociedade.

Um tipo que sempre me intrigou é o do “Procura-se mozão”. Alguns até escrevem no perfil: “Se não quer relacionamento sério, nem dá like”. Gente. O aplicativo tem mais fotos do que caracteres, como tu espera concluir que aquela criatura é um potencial mozão com uma descrição minúscula pra saber se dá o like ou não? E tem mais: até agora, do que pude entender bem pouquinho sobre o amor, é que mesmo sabendo até o tipo sanguíneo da pessoa você não tem como saber se ela vai ser o seu mozão. Então o lance todo é só saber se a pessoa tá disposta a se apaixonar? E se ela está disposta, mas não com você? E se não rolar aquela química doida? Acho complexo isso.

Mas entre as pessoas que se dizem na mesma vibe que eu, de “só pegação”, a coisa não é tão mais simples não. Tem muita gente que quer uma meeeeega conversa antes de um encontro real, acredita? Aham. A criatura diz que só quer me dar uns beijos, mas, antes disso, precisa saber toda a minha vida, meus planos pro futuro e a até a relação com meus pais. Isso não faz o menor sentido pra mim. O questionário básico “nome, idade, emprego/estudos, foi golpe ou não” já não tá mais que bom? Quem nunca ficou com gente em balada sem antes perguntar essas coisa tudo?

E é quase um protocolo. Quando você responde um monte de coisas uma vez, até pensa que a pessoa tá super interessada e junta forças pra fazer isso; agora, fazer isso 31793 vezes é um porre. Digo mais: dá pra ver que a pessoa não tá interessada real oficial, sabe? Aquelas respostas “bah, legal”. Parece que ela tá preenchendo um daqueles questionários que a gente fazia na 5ª série que, a bem dizer, é um monte de informações – e todas elas bem selecionadas para se manter fiel a imagem que se quer criar, assim como as fotos, as músicas e tudo o mais. Isso tudo, junto com os vários bolos que tomei em encontros reais, me faz questionar até que ponto a galera tá disposta a sair do perfil, a ter uma troca real mesmo. Abraçar o imprevisível, ver a expressão que a pinta vai fazer quando vocês se virem a primeira vez ou se ela realmente está rindo da sua história em vez de fazer uma aglutinação de letras k.

Então, pode dizer que só quer transar mesmo ou que não tá tão a fim assim; tá autorizado dizer que sonha em encontrar THE ONE, casar e procriar loucamente; vale também procurar gente só pra dividir lanches. O Tinder, enfim, se verificou mais uma experiência antropológica do que qualquer outra coisa. É um não-lugar bem interessante para ver diferentes tipos de postura e relações (e, claro, pra dar umas risadas também). Aí questiono: superficiais mesmo são as relações só de pegação ou essas que ficam só no blábláblá virtual? Sei não. O que vejo é que, pra mim, falta olho no olho, toque, aquela leitura da linguagem corporal pra ver qual é que é mesmo. Talvez seja por eu pensar assim que só saí com duas pessoas do Tinder até hoje: uma virou amiga; outra, mozão (veja só). Mas as duas foram as que primeiro toparam o café e, depois, a conversa de horas. Quer saber? Acho que já deu. Perfil deletado.

um comentário

  1. Hahahah! Que descrição perfeitamente hilária e verídica deste aplicativo [-lê-se-catálogo-virtual-de-humanos], dei boas risadas com o Tinder e já tive muita raiva também! 😜

    Curtido por 1 pessoa

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