Comportamento

Da arte

Daarte_P2
imagem: RDK

Um daqueles momentos de perceber o quanto se é privilegiada é pensar em quantos museus já se foi na vida. Tive a oportunidade de ir naqueles super incríveis, como o Louvre, o Metropolitan, o British Museum, o Prado. Lembro de entrar no Louvre, com meus amados 18 anos, e um Pedro do meu lado pirar pela Vitória de Samotrácia. E eu disse: “Bah, massa né?”. Não fazia a menor ideia do que era, mas tudo bem porque ele adorou explicar. Acho que posso resumir bem essa experiência dizendo que ele ficou no museu até fechar e eu saí antes pra ir no McDonalds – 18 anos e com fome, gente, me perdoem.

Então, pode-se dizer que eu não era uma pessoa muito ligada nas artes. Mas, como tudo, isso também foi um processo: comecei a me interessar, estudei sobre e, principalmente, liguei o foda-se. O foda-se, esse movimento contemporâneo que tem até livros sobre, foi essencial para a minha (ainda em construção) concepção do que é arte e de como ela me toca. Justamente porque o foda-se me deu a autorização para, respeitando o aspecto histórico e inovador daquela obra no contexto em que foi criada, ainda assim, dizer “meh”.

Esse mesmo foda-se fez com que eu não ignorasse, mas me permitisse dar menos importância ao que as pessoas diziam que eu TINHA QUE visitar, aos museus que eu TINHA QUE ir e aceitar ir naqueles em que eu realmente queria ir – e se preferir, em vez disso, ir no bar, tá tudo ótimo. O que eu não tinha percebido ainda, e que agora vejo (obrigada maturidade e processo reflexivo) é que o foda-se não é somente uma quebra de relação de poder do que se legitima como importante na arte, mas também uma forma de se ouvir. De pensar o que me toca, o que me move, o que me sensibiliza.

Nesses museus ~importantes~ todos, vi obras incríveis, algumas de tirar o fôlego. Um dia vi uma ilustração¹ que me mexeu de uma forma que as lágrimas brotaram na hora. E foi na… Comic Con Experience. Informe: Comic Con Experience é um evento de quadrinhos em São Paulo, nem museu é. Coincidentemente (ou não, vai entender esses caminhos da vida) o Pedro estava comigo e disse: se tu não comprar, eu te dou. Com certeza, aquele abalo foi do momento: aquele dia, aquela fase da minha vida, aquela Brunna, naquela viagem, com aquelas pessoas. Talvez batesse de outra forma se fosse meses depois. Não importa. O que sei é que a aquela ilustração vale mais, pra mim, do que um Picasso.

E não, o foda-se não me fez ir menos a museus. Ele me fez ficar 8h em um ônibus para ir ate o Museu do Escher, porque, pra mim, fazia sentido; me fez ir ver a Moça do Brinco de Pérola porque eu realmente estava instigada a analisar a luz do quadro; me fez achar que valia a pena ir no Museu da Diversidade Sexual, mesmo que ele seja uma única sala na estação de metrô República – e valeu. Me ensinou também a não dizer para as pessoas que elas TÊM QUE ver tal obra porque é incrível, mas, sim, a dizer que seria bem massa ver o que essa obra pode despertar nela. O foda-se, afinal, me tornou mais crítica, mais forte e mais decidida – e, quem diria, ele justamente é se permitir ser sensível. Talvez o que me faltava mesmo era esse caráter libertário e revolucionário da arte, inclusive sobre mim.

Thinking
¹ A ilustração é esta, chamada Thinking (Mika Takahashi, 2017). Linda, né?

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