Cinema

Bohemian Rhapsody (Bryan Singer, 2018)

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Quando saíram os primeiros trailers da cinebiografia do Queen eu fiquei com medo. Medo por que é bastante comum que trailers grandiosos promovam os (únicos) melhores momentos de um filme meia-boca. Esquadrão Suicida que o diga, não é Warner/DC? Bom, o trailer de Bohemian Rhapsody era poderoso. Como não poderia deixar de ser poderoso um trailer turbinado com a trilha sonora do Queen. Quaisquer que fossem as canções escolhidas para o trailer, seria difícil não ficar bom. O trailer era emocionante. E, felizmente, meu medo era infundado: Bohemian Rhapsody entrega o que promete.

A primeira coisa que chama a atenção no filme é Rami Malek. O relativamente desconhecido ator norte-americano (já recebeu uma indicação ao Globo de Ouro pela série Mr. Robot) encarnou o vocalista e performer com uma assombrosa semelhança. Lembrou Jamie Foxx como Ray Charles em “Ray” (Taylor Hackford, 2004) ou Morgan Freeman como Mandela em “Invictus” (Clint Eastwood, 2009). Impressiona o trabalho do ator em incorporar gestos e maneirismos de Freddie Mercury. A partir daí não surpreende que o diretor tenha escolhido levar todo o filme em torno dele. Se a ideia era uma cinebiografia do Queen, na verdade o que nós temos é um filme sobre Freddie Mercury. O que, de forma alguma, é ruim. Gwilym Lee, Bem Hardy e Joe Mazzello (respectivamente Brian May, Roger Taylor e John Deacon), que vivem o resto da banda, também estão visualmente extremamente parecidos com as versões reais de seus personagens, mas ficam em segundo plano durante o filme todo.

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Elenco do filme reproduzindo fielmente o visual da banda

Quando se faz uma biografia sobre um cantor, sempre cogita-se a possibilidade de o ator cantar as músicas. Foi, por exemplo, a escolha de Antônio Carlos da Fontoura em “Somos Tão Jovens” (2013), onde Thiago Mendonça viveu Renato Russo e cantou. Quando isso é feito, os resultados podem ser ótimos ou nem tão bons assim. Bryan Singer optou pelo caminho menos arriscado e o que temos é Malek dublando as canções de Freddie Mercury. Na minha opinião, uma escolha muito acertada do diretor. Mercury era um cantor tão marcante, com uma forma de cantar tão característica que por mais que Malek se esforçasse, seria difícil uma performance que não fosse (bastante) criticada. A forma como as músicas são incluídas, ainda, é caprichosamente pensada. Algumas canções são apresentadas em performances ao vivo (em geral representando a passagem de tempo durante as turnês, com muitas imagens de shows) e outras são mostradas durante o seu processo de produção. Como fazer para mostrar a própria “Bohemian Rhapsody” de forma que já não tenha sido mostrada? Singer decide desconstruir a canção, paradoxalmente mostrando o processo de construção dela. Fica bom, além de diferente.

Singer, aliás, é um diretor experiente e seguro de “Os Suspeitos” (The Usual Suspects, 1995), “X-Men: O Filme” (X-Men, 2000) e Operação Valquíria (Valkyrie, 2008). Sem grandes maneirismos, ele sabe contar uma história e a escolha de contar a trajetória de Mercury sem cair num quase-musical é muito feliz. A cena do rompimento de Freddie com seu ajudante pessoal, Paul Prenter (Allen Leech) na chuva em Berlim é lindamente construída e vale o ingresso, com certeza.

Os roteiristas Anthony McCarten e Peter Morgan optaram por contar uma boa história, privilegiando o storytellyng em detrimento da “verdade” documental. Quem conhece a história da banda vai perceber que alguns fatos foram atropelados e que a ordem cronológica foi deixada um pouco de lado em função de contar uma boa história. Os primeiros shows do Queen no Brasil, por exemplo, foram em São Paulo em 1981. Singer cola nesses shows a versão de Love of My Life que foi imortalizada no Rock in Rio, em 1985, quando Freddie Mercury regeu o coro da Cidade do Rock durante boa parte da música. Da mesma forma, a impressão que o filme passa é que o concerto no Live Aid, em 1985, foi a volta da banda depois de muito tempo sem tocarem juntos, o que não é verdade. Em 1985, antes do Live Aid, o Queen excursionou por Japão e Austrália, além de ter feito, em janeiro daquele ano, os seminais shows no Rock in Rio (aos quais não há nenhuma referência direta no filme). A banda estava muito azeitada, portanto, e não tinha as dúvidas e questionamentos que o filme mostra. Por fim, no filme o diagnóstico de HIV de Mercury é anterior ao Live Aid e a revelação para os companheiros de banda é bem dramática, num ensaio anterior ao concerto. Segundo as biografias do Queen o próprio Freddie ainda não sabia do HIV quando do Live Aid e May, Taylor e Deacon não ficaram sabendo antes de 1988.

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Rami Malek e Gwilyn Lee recriam Freddie Mercury e Brian May no palco do Live Aid

 Não vejo problema algum nisso numa obra que não se propõe a ser um documentário, mas sim uma obra de celebração da música do Queen e da vida e do talento de Freddie Mercury. Essa celebração passa por escolher terminar o filme no concerto do Live Aid, inclusive. A ideia é mostrar um artista no auge da sua potência celebrando a música e a intensidade que o imortalizaram. Nesse sentido, o filme esmera-se na reconstrução da performance da banda no Live Aid. Chega a ser impressionante rever o show em Londres depois de ter visto o filme. Há um cuidado da produção nos mínimos detalhes, como os copos de Pepsi-Cola em cima do piano, por exemplo.

“Bohemian Rhapsody” vale, com certeza, a ida ao cinema. A poderosa trilha sonora do Queen e a performance de Malek, conduzidos por Singer, levam a uma experiência emocionante. Se o trailer me empolgou, o filme me fez chorar, e mais de uma vez.

PS: De preferência depois de ver o filme, assista esse vídeo. É uma comparação da cena do filme no Live Aid com a filmagem real do concerto. Impressionante!!

Live Aid: no filme e em Wembley

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