Quadrinhos

Stan Lee (1922 – 2018)

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Quando eu conheci Stan Lee eu nem sabia quem era Stan Lee. Eu era o menino de 10 anos que ficava sentado no chão na parte de revistas do antigo supermercado Dosul, em Porto Alegre, lendo rápido o último número de Heróis da TV ou Superaventuras Marvel antes que o meu pai chegasse, para pedir para ele levar, aí sim, a mais recente edição de Homem-Aranha. Assim eu fui me familiarizando com Stan Lee, sem saber ainda quem ele era. E passei a conhecer Matt Murdock, Scott Summers, Ben Grimm e, é claro, Peter Parker.

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Stan “The Man” Lee redefiniu um gênero. Criou mundos. Apropriou-se de temas tão diversos quanto a literatura vitoriana ou a mitologia nórdica para nos dar personagens como Hulk e Thor. Preocupou-se em combater preconceitos quando criou os X-Men. Pensava já em representatividade nos anos 60 quando criou o Demolidor, o Falcão, o Pantera Negra ou Luke Cage. Stan Lee criou o grande Ego, o Planeta Vivo, ao mesmo tempo em que criava o diminuto Homem Formiga. Transformou um vendedor de armas num herói anti-guerra quando criou o Homem de Ferro. Mostrou que não são os poderes que fazem um herói ao dar vida ao Gavião Arqueiro. E que não importa o quanto um vilão seja poderoso, como Galactus, ele sempre pode ser vencido. Stan Lee filosofou pelo espaço gélido na carona do Surfista Prateado e também caminhou entre dinossauros com Ka-Zar (e Zabu, é claro). Explorou a ciência e a tecnologia com Reed Richards e Tony Stark, e também o oculto e o sobrenatural com o Doutor Estranho.

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A primeira das grandes criações de Stan Lee, o ponto zero da Marvel, foi a criação do Quarteto Fantástico. Desde o início, o grupo era diferente: apesar dos seus (fantásticos) poderes, o que os tornava especiais era o fato de serem uma família. Na maioria das vezes, os problemas poderiam ser resolvidos pelo quarteto sem o uso dos poderes e mesmo sem o incrível intelecto de Reed Richards, mas a partir do coração de ouro de Ben Grimm, escondido sob as pedras laranjas da pele do Coisa.

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E não dá para deixar de falar do filho pródigo: quando Stan Lee teve a ideia para criar o Homem-Aranha, não foi compreendido de primeira. Nem seu parceiro de criações, Jack Kirby, o entendeu, a ponto de Lee, insatisfeito com os rascunhos de Kirby, ter procurado outro artista para desenhar o cabeça de teia. Foi Steve Ditko quem o compreendeu: o Homem-Aranha é o herói franzino e magricela. Ele não tem pose de herói. Ele é, na verdade, um adolescente nerd que sofre bullying na escola. Ele mora com a tia (que odeia o Homem-Aranha). Ele toma esporro do chefe (que TAMBÉM odeia o Homem-Aranha). Ainda assim, como ele duramente aprendeu, é o seu dever protegê-los. O que ele ganha com isso? Nada. Pelo contrário, muitas vezes ele perde. Mas ele faz porque é certo. Porque ele tem enormes poderes, que ele poderia usar para se vingar do bully da escola ou para ganhar muito dinheiro. Mas ele não o faz. Porque, enfim, aprendeu com seu tio que “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”. O Homem-Aranha se tornou o maior herói da Marvel (e talvez o maior herói do mundo) não por causa dos seus poderes, mas pelo o que de humano há nele, pelo tanto de mim, de você, de todos nós, que conseguimos enxergar nele.

Stan Lee foi um visionário. Um criador fantástico de personagens e uma mente fervilhantemente fértil, em especial no fim dos anos 60. Ainda que hoje algumas de suas histórias tenham ficado um pouco datadas aos nossos olhos, há leituras que valem a pena. A passagem inicial de Lee pelo Quarteto Fantástico (mais de 100 edições em parceria com Kirby) é a pedra de fundação do universo Marvel. Ali foram criados, além do Quarteto, personagens como o Doutor Destino, o Pantera Negra, Galactus e o Surfista Prateado. Nesse trabalho, Jack Kirby praticamente reinventa a narrativa nos quadrinhos, criando a maneira como nós os lemos ainda hoje. Também revolucionárias são as primeiras 100 edições de “Amazing Spider Man”, parceria de Lee com Steve Ditko e John Romita. Nessas edições, vemos o Homem-Aranha se estabelecer como o primeiro herói adolescente da história (herói, não parceiro-mirim) e vemos o surgimento de personagens como Gwen Stacy, Mary Jane Watson, o Abutre, o Homem-Areia, o Rino, o Escorpião, o Doutor Octopus, o Electro, Kraven, o Caçador e o Duende Verde.

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Se não bastasse serem eternos os personagens que ele criou, há algo ainda maior: Stan Lee entendeu e redefiniu o significado de ser um herói. O conceito de heroísmo que temos hoje, a ideia do espírito nobre que luta e defende os mais necessitados, que faz o que for justo e correto sem se importar com as consequências, é a herança maior e o legado mais bonito que Lee nos deixou.

Só há uma coisa a dizer para Stan Lee: obrigado, obrigado e obrigado! Excelsior!

(A maioria das imagens deste post saiu de um álbum onde vários artistas se despedem de Stan “The Man” Lee. Vale a pena dar uma olhada: https://imgur.com/gallery/kPa2Fjt

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