Música

Herbie Hancock em São Paulo

Herbie Hancock em SP 01
imagem: Cassiano Rodka

Pode-se dizer que o Brasil foi essencial para o início da carreira de Herbie Hancock. Nos anos 60, o tecladista era parte do quinteto de ninguém menos que Miles Davis. Mas, ao se atrasar para um show devido a uma lua de mel prolongada no Brasil, Hancock levou um pé na bunda do renomado trompetista. Em vez de encarar o fato como uma derrota, o pianista aproveitou a oportunidade para montar uma nova banda e sair em busca de um som próprio. Com o lançamento do disco “Head Hunters” em 1973, o músico deu uma guinada em sua carreira, mesclando jazz, soul, funk, eletrônica e avant-garde.

No dia 17 de novembro de 2018, Herbie Hancock subiu ao palco do Credicard Hall para provar que a sonoridade que ele deu vida há 45 anos ainda faz muito sentido na atualidade. O setlist incluiu uma canção de cada um dos principais discos do músico da fase mais funk. Muitas faixas ficaram de fora, é claro – o cara tem mais de 40 álbuns –, mas os clássicos estiveram presentes, incluindo “Watermelon Man” e “Cantaloupe Island”. Entre as covers, teve espaço para uma versão de “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento.

Com muita simpatia, o tecladista interagiu bastante com o público e com a sua banda, deixando muitas vezes os seus músicos tomarem o centro do palco. Uma decisão muito acertada de Hancock é a de não se prender a uma banda de grandes nomes do passado do jazz. Em vez disso, ele convocou vários novos artistas do gênero, formando um quarteto de sonoridade bem peculiar. Um deles é o gaitista suíço Grégoire Maret, que mostra habilidade e criatividade com um instrumento não muito comum na formação de um grupo de jazz. No baixo, temos James Genus, conhecido por tocar na banda do programa Saturday Night Live. Na bateria, o grande Justin Brown, que toca com Thundercat e Esperanza Spalding, rouba a cena em “Actual Proof”. E no vocal, o cantor norte-americano Michael Mayo explora o seu alcance de forma experimental e criativa. Em um momento solo, ele sampleia sua própria voz ao vivo para criar uma base para cantar “Alone Together”, uma canção jazz composta por Arthur Schwartz e Howard Dietz, e interpretada por diversos cantores, incluindo Ella Fitzgerald e Carly Simon.

Hancock alterna suas melodias entre um teclado Korg e um piano de cauda. Em “Come Running to Me”, ele utiliza um vocoder para sintetizar a sua voz. Mas o instrumento que rouba as atenções é, sem dúvidas, o keytar, aquele teclado super anos oitenta que se usa no ombro como uma guitarra. E é com ele em punho que o velhinho de 78 anos encerra o show, deixando quase impossível não levantar da cadeira para dançar. A última canção é um dos grandes hits do disco Head Hunters, o eletrofunk “Chameleon”, daquelas músicas que rolam no rádio da nave do Toe Jam & Earl. Vestindo um terno preto estampado com teias de aranha enquanto toca jovialmente caminhando pelo palco, o músico parece debochar da idade. Depois de quase duas horas de apresentação, com muita improvisação e sem estrelismos, Herbie Hancock se despede de um público pra lá de satisfeito.

Herbie Hancock em SP 02
imagem: Cassiano Rodka

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