Cinema Quadrinhos

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-man Into the Spider-verse, Bob Perichetti, Peter Ramsay e Rodney Rothman, 2018)

into-the-spider-verse

Em 2000 a Marvel lançou algumas mini-séries recontando as origens de seus heróis, atualizando-as para o século XXI. Aquilo deu tão certo, mas tão certo que as mini-séries se tornaram séries regulares e circularam por mais de quinze anos, como realidades paralelas aos quadrinhos. Era o “Universo Ultimate”, ou “Ultiverso”, como foi chamado aqui no Brasil. A Marvel sempre teve seu universo “principal” e vários universos alternativos paralelos, mas nunca um deles tinha circulado com tantos títulos e por tanto tempo quanto o Ultiverso. O Ultiverso foi tão bem sucedido que o Universo Cinematográfico da Marvel baseou-se nele para criar os seus Vingadores, hoje de tanto sucesso no cinema. A nova versão do Homem-Aranha (do ótimo “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e do aguardado: “Homem-Aranha: Longe de Casa), estrelada por Tom Holland, também. O escritor de Homem-Aranha Ultimate, Brian Michael Bendis, numa decisão polêmica, matou o Peter Parker Ultimate. Aquela versão do herói, portanto, teve início, meio e fim. E foi então que ele criou Miles Morales, talvez o maior acerto da Marvel nos últimos 30 anos. Morales deu tão certo que em 2015, quando a Marvel resolveu colidir seus universos para acabar com a multiplicidade deles, decidiu também que Morales ia ficar. Não importa que no universo “base” da Marvel já houvesse Peter Parker: a Marvel resolveu (acertadamente) que não tinha problema algum em se ter dois Homens-Aranha.

51h8tw0nwdl._sx323_bo1204203200_

Miles Morales é o protagonista da animação “Homem-Aranha no Aranhaverso”. O personagem criado por Bendis está lá: um jovem secundarista cheio de dúvidas e com dificuldades para se adaptar à nova escola, onde ele acha que não mereceria estar. O pai, policial, é rígido e cobra muito do menino, porque sabe que um jovem negro nos EUA tem que se esforçar muito mais que a média se quiser ser bem-sucedido. Miles encontra na figura de seu tio, Aaron, a cumplicidade que não tem com o pai. É numa de suas “fugas” (dos pais, da escola, do mundo) buscando refúgio com o Tio Aaron que Miles é picado por uma aranha geneticamente modificada. E, bom, você conhece o resto da história.

“Homem-Aranha no Aranhaverso” parte de um arco de HQs escrito por Dan Slott (que talvez seja, juntamente com Stan Lee e Brian Michael Bendis, um dos roteiristas mais importantes da história do Homem-Aranha) onde as pessoas-aranha de diversas realidades se encontram em função das tramas de alguns dos inimigos mais clássicos do cabeça-de-teia. A trama poderia ser MUITO confusa. Poderia ser, inclusive, hermética, inacessível para quem não tenha lido os cinquenta anos de quadrinhos do “Amigão da Vizinhança”. Mas não é. Phil Lord (Uma Aventura Lego) e Rodney Rothman, os roteiristas, conseguiram bolar uma história linear e fácil de acompanhar, onde nos conectamos facilmente com Miles e com os outros personagens. Além de Miles, temos um Peter Parker de outra dimensão, mas velho, gordinho e fracassado, que vai servir de “mentor” para o protagonista. A “Spider-Gwen”, que surgiu como uma piada e acabou fazendo um sucesso tremendo, também está lá, assim como a versão mangá Peni Parker, a versão do Homem-Aranha Noir (na versão legendada, a voz dele é de Nicolas Cage, que, sempre que pode, se envolve nas produções sobre heróis, já que é fã) e o simpático Peter Porker, o Porco-Aranha (uma paródia deliciosa do Homem-Aranha e também de personagens da Warner, que é dona da DC, a principal concorrente da Marvel).

https3a2f2fblueprint-api-production.s3.amazonaws.com2fuploads2fstory2fthumbnail2f756382f5c007495-612c-4293-9c33-a4e78ed962cb
Gwen-Aranha, Peter Parker (de calças de moletom) e Miles Morales

Se o roteiro é seguro e tradicional, bebendo direto da Jornada do Herói, não se pode dizer o mesmo da animação em si. “Homem-Aranha no Aranhaverso” tem um estilo de desenho moderno e arrojado. A trama se sustenta num estilo de animação baseado em grafites, já que esse é o mundo de Miles. É muito interessante o quanto a animação se transforma quando cada um dos Aranhas está em tela, adotando o estilo dele. O Homem-Aranha Noir, por exemplo, está sempre em preto e branco. Peni Parker é mangá e Peter Porker uma animação clássica. Uma direção menos cuidadosa poderia fazer um filme poluído, a partir desse festival de referências, mas não é o que temos: o filme flui maravilhosamente bem, visualmente, sempre com a referência maior de ser um filme sobre quadrinhos.

spider-man-into-the-spider-verse-5bcc07921fc88
O Homem-Aranha Noir tem a voz de Nicolas Cage

“Homem-Aranha no Aranhaverso” é um filme divertidíssimo e eleva as animações da Marvel (por mais que seja um projeto da Sony) a um novo patamar, abrindo novas oportunidades. Apesar do domínio da Marvel no cinema, as animações eram um terreno dominado pelas ótimas produções da DC. O sucesso de crítica e público de “Homem-Aranha no Aranhaverso” pode ajudar a Marvel a começar a reverter esse quadro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: