Comportamento

Do show I ou Da solitude

Do show I ou Da solitude
imagem: Cassiano Rodka

Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. Um dos motivos foi ter conhecido Juliana.

Juliana pedia sua champanhe ao mesmo tempo que tentava controlar sua ansiedade e empolgação, que eram visíveis do espaço sideral. Ela estava louca de vontade de dividir aquela experiência com alguém – e a escolhida foi minha irmã, que também estava no bar. Assim ela me foi apresentada: uma mulher recém divorciada, com uma filha pequena e que estava riscando o item “ir sozinha a um show” da sua lista de coisas pra fazer antes de morrer.

Nosso grupo, em que, coincidentemente, todas as mulheres eram divorciadas e 75% eram mães, prontamente acolheu Juliana. Perguntamos sobre os outros itens da lista, que consistia em fazer coisas sozinha, como jantar, ir ao cinema, viajar, etc. Juliana aproveitou o espetáculo perto de nós e sorriu muito. Ela e minha irmã trocaram telefones (quem faz isso, gente?) e provavelmente essa será a única vez em que a verei na vida, mas expressamos a vontade de dar uns rolês em São Paulo juntas. Nenhum sentido e todo sentido do mundo ao mesmo tempo.

Então, falando sobre seu momento de vida, Juliana disse: “a gente tem que aprender a ser feliz sozinha, não é?”. Talvez por isso eu tenha gostado tanto dela. Descobri recentemente que existe essa palavra chamada solitude, que remete à alegria de se estar sozinhe – o que a difere da palavra solidão. Eu sou uma fã de carteirinha da solitude, mas tenho descoberto que ela é incompreendida, tadinha. No último réveillon, por exemplo, senti que precisava dar um fechamento a 2018 num momento meu, de solitude. Decidi que ficaria sozinha na cidade e não viajaria com amigues ou família, e eu estava ótima com isso. Simultaneamente, minha família concluiu que havia algo seríssimo acontecendo e que eu ia ficar muito triste de passar a virada de ano sozinha. Haja saliva pra argumentar que eu REALMENTE queria ficar na minha.

Por gostar tanto da solitude, desenvolvi uma pira de constantemente sentir meu espaço sendo invadido e, basicamente, por qualquer coisa. Odeio que me perguntem onde eu estou, por exemplo (sim, já ouvi que eu deveria vir com manual de instruções, OK?). Mas será que é tão doido assim achar que a pessoa deveria explicitar o motivo da pergunta antes de fazer a pergunta em si? Digamos que a pessoa me ligue e pergunte o que eu estou fazendo. Ninguém nunca me perguntou isso porque estava interessade nas minhas atividades mundanas. Em geral, é porque pretende fazer um convite e quer saber se eu estou ocupada. Olha só, eu não querer sair com você não quer dizer necessariamente que eu tenha que estar ocupada com outras atividades ou pessoas, pode ser que eu não queira sair porque quero passar um tempo… comigo! Mas é só falar isso que escuto: “leoninaaa, ela se basta”; “minha companhia é tão ruim assim que você prefere ficar só?”; “assim vai acabar sozinha, hein?”. Tá bom, obrigada.

“Brunna, quer dizer que você nunca se sente sozinha?”. Óbvio que sinto. Tem momentos em que não queria estar apenas comigo, ou que queria estar com alguém específico. Tem aqueles em que quero compartilhar algo e sentir que ninguém entende exatamente o que eu estou dizendo é a maior solidão do mundo, algo que já me aconteceu em uma sala repleta de gente. O que me incomoda é transformar sentimento em análise quantitativa: seja N o número de pessoas que está com você; se N é maior ou igual a um, então você está feliz; se N é igual a zero, então você está triste, isolado, odeia o mundo, trevas.

Um divórcio foi o necessário para impulsionar Juliana a questionar essa equação. Para mim, um ano sabático (2015, mais precisamente). Admito, foi difícil conviver tanto assim comigo mesma – mas descobri coisas sobre essa pessoa que eu nem imaginava. Me encantei com alguns aspectos; tento, ainda, mudar o que não gosto tanto assim. E sigo nessas descobertas e reafirmações, num processo de entendimento de mim e de construção de outras equações que me satisfaçam mais, agora repletas de variáveis.

um comentário

  1. Eu quero sim ir para São Paulo e tomar umas contigo!! Kkkkkk
    Amei estar aí, em palavras.
    Cada vez amando mais minha solitude. Bjo grande!!

    Curtido por 1 pessoa

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