Cinema

Guerra Fria (Pawel Pawlikowski, 2018)

0215518

                A liberdade é um bem inquestionável? Vale abrir mão de tudo para ser livre? E quando esse “abrir mão de tudo” incluir abrir mão de ser você mesmo? Você abriria a mão de sua essência para ser livre? Você seria livre se para isso tivesse que deixar de lado aquilo que define o que você é?

                Eu ainda não sei responder todas essas perguntas, que ficaram na minha cabeça ao sair do cinema depois de ter visto “Guerra Fria” (Zimna Wojna, Pawel Pawlikowski, 2018). O diretor polonês não é uma novato. Ele já havia feito o ótimo “Ida” (2013), vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2015. Em “Guerra Fria” Pawlikowski além de dirigir também é responsável pelo roteiro. A expressão “Guerra Fria” no título do filme pode fazer referência a várias questões: pode ser bem literal, uma vez que o filme conta uma história que se passa na década de 1950 na Polônia e retrata as questões políticas no Leste Europeu no conturbado período da bipolaridade mundial. Mas podemos também fazer uma interpretação mais livre e usar “Guerra Fria” para nos referirmos à relação entre os dois protagonistas, o músico Wiktor (Tomasz Kot) e a bailarina Zula (Joanna Kulig. Acho que vamos ouvir falar muito dela ainda).

lukasz_bak_zimna_wojna_fotografie_press_pics-3-of-7
Jovens buscam na arte uma oportunidade em um país ainda traumatizado

                Numa Polônia juntando os cacos depois da Segunda Guerra, o maestro Wiktor e sua esposa Irena (Agata Kulesza) fazem parte de um esforço para resgatar as canções e danças típicas do interior da Polônia, dentro de uma ideia de ajudar a construir um nacionalismo polonês. Ao mesmo tempo o projeto também servia para dar casa, comida e propósito para jovens talentos, num país arrasado pela Segunda Guerra. Quando a iniciativa, chamada Mazurka, começa a chamar a atenção dos governantes, que querem utilizá-la para fins de propaganda política, Irena, mais purista, acaba indo embora e deixando Wiktor livre para assumir seu envolvimento com Zula. A relação de Wiktor e Zula é carregada de uma tensão muito grande em função dos controles e espionagens políticas que existiam em toda Polônia, inclusive dentro da Mazurka. As apresentações do grupo fora da Polônia chegam a Berlim e ambos tem a oportunidade de desertar, mas as dúvidas e inseguranças de Zula fazem com que ela fique para trás e não acompanhe Wiktor. A partir daí a relação de ambos se torna idealizada: é perfeita, para ambos, quando não estão juntos. Nos momentos fugidios em que se encontram a paixão se mistura com a mágoa: a dele, por ela ter desistido de fugir; e a dela, por ele ter fugido sem ela. Quando ela vai morar em Paris com ele, a adaptação é complicada. O desconforto de Zula e a inadequação ficam ilustrados nas versões jazz das mesmas músicas folclóricas que Zula cantava na Mazurka: as músicas são boas, mas não é a mesma coisa. O desfecho (trágico?) do filme não poderia ser diferente para um casal que se ama perdidamente mas já não conseguem ficar juntos.

guerra-fria-pawel-pawlokowski-blog-cinema-news-1

                A direção de Pawlikowski é segura e sabe que história quer contar. Não por acaso o diretor levou a Palma de Ouro em Cannes. A direção de fotografia de Lucasz Zal (parceiro de Pawlikowski em “Ida”, também) opta pelo preto e branco, que reforça a dureza das pessoas, das relações, do mundo, da vida. O filme é tecnicamente muito bem executado e o que poderia ser um romance simplório numa série de reflexões sobre pertencimento e identidade. Até que ponto, enfim, estamos dispostos a abrir mão? Até que ponto devemos abrir mão? São as perguntas que ficam.

zimna_wojna_2018_17

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s