Comportamento

Do show II ou Dos espectadores

Do show II ou Dos espectadores
imagem: Cassiano Rodka

Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. É um show interativo, completamente diferente de tudo que eu já tinha visto – atenção, pois os spoilers começam agora!

Coisas acontecem de forma não prevista e impressionante, como aparecer uma espécie de piscina sobre a sua cabeça com mulheres dançando na água. É indescritível. Como qualquer show, ele é diferente pra cada pessoa que ali está. Por exemplo, eu fico fora da casa num show do Arcade Fire por milhões de motivos, mas já vi pessoas achando bem MEH – juro que dá uma vontade de dizer: “VOCÊ ESTÁ SENTINDO ERRADO”, mas né? Sempre penso também que a reação de cada pessoa ao show fala muito sobre quem ela é e do seu momento; e, como gosto de suposições, vou fazer várias baseadas nos tipos que vi.

Começo por mim, já que consigo falar dessa pessoa com (alguma) propriedade. Eu estou num momento de vida de espera, escutando meus pensamentos e sentimentos sobre pra onde caminhar. Estou aberta a todas as possibilidades possíveis e ligeiramente perdida. Mas tudo bem, uma hora me acho. Essa Brunna, então, foi ao show evitando todos os spoilers – e foram quase seis anos nessa tarefa árdua. Eu queria a surpresa, queria sentir tudo. Fiquei o mais próxima possível dos palcos, dancei loucamente, me molhei com os chuveiros gigantes e fiquei no mais absoluto silêncio digerindo tudo aquilo. Saí borbulhando!

Perto de mim havia uma pessoa que já tinha ido ao show da outra vez em que ele esteve em Porto Alegre. Essa pessoa estava absurdamente empolgada e comentava tudo o que acontecia, apontando o lugar onde ocorreria a próxima performance e verbalizando suas interpretações e as conexões realizadas com as metáforas trazidas pelo show. Era lindo, mas era ela. Ela estava preocupada em dividir a experiência, em externalizar aquilo tudo, talvez por conhecer mais sobre o espetáculo do que xs demais. Ou, ainda, por querer que xs outrxs vivenciassem aquilo como ela fez e que foi tão incrível. Sabe aquela pessoa que diz: “tu vai visitar tal lugar? Então tu TEM QUE ir num bistrô incrível na ruazinha tal onde eu comi o melhor risoto da minha vida”? Essa pessoa.

Teve, ainda, a pessoa que assistiu de longe. Não a vi, apenas escutei ela dizer, no momento em que a piscina baixava sobre nossas cabeças: “estoura! Estoura!”. É a pessoa da piadinha inconveniente, esse escudo para todos os males, pra quem o sensível é tão assustador que prefere ficar na concha. Essa vivência inusitada que sai fora do que eu conheço? Não, valeu. Prefiro ficar aqui fazendo comentários desnecessários para evitar que essa experiência me mobilize de alguma forma. E, bom, tem aquela que não tá na vibe. Que não tá acompanhando a cadência da música e pra quem o cara correndo na esteira não tem sentido algum. Ela já decidiu que dança contemporânea não é a praia dela, ela só foi por obrigação – tipo acompanhar mozão, ou algo assim. Ela está ali, apenas. Corpo presente, cabeça no que vai jantar depois.

Visto que esses perfis foram por mim inventados, existe uma chance absurdamente grande de eles não corresponderem à realidade – principalmente quanto às delimitações, pois acredito que tem pessoas que alternam entre um e outro num mesmo show ou que são um híbrido deles. Mas partindo do pressuposto de que eles são minimamente válidos, me surpreendi de conseguir transpor todos para o contexto escolar: aquele alune interessade pela descoberta, que quer ver o que vai acontecer ali; tem o que faz questão de explicar tudo a todes, na forma como elx entendeu; tem quem faça comentários desnecessários pelo medo de lidar com o que vem; e quem apenas tá ali porque é obrigatório, ou que acha que aquilo não é interessante mesmo. Obviamente que não só de alunes é feita a escola, mas há docentes nesses perfis também.

E o que podemos concluir dessa conexão maluca inventada que eu fiz? Que a sala de aula, como o show, é uma articulação muito complexa de coisas: alunes, docentes, ambiente, interesses, gostos, disposição, momentos de vida e tantas outras mais. E aí eu me pergunto: quem é que inventou que a mesma aula serve pra todo mundo em todos os contextos? O que é inegável é que a escola tem um potencial absurdo de mobilização, como um espetáculo. Talvez a gente só não esteja organizando o evento da melhor maneira. Ou talvez os artistas não sejam bons. Ou o ambiente não tá legal. Ou o tipo de show não seja o que mais te interesse. Mas já está na hora de parar de pensar que o problema é somente o espectador – ou melhor: pensar que alune é, somente, espectador.

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