Música

Quem fala é o doutor: Sessão de terapia com Los Hermanos

LosHermanosemSP2019
imagem: Cassiano Rodka

Confesso que eu não estava muito empolgado para assistir mais um show de reunião do Los Hermanos. Uma turnê sem um disco novo, baseada mais em saudosismo é bacana uma ou duas vezes. Cinco vezes começa a perder sentido. Mas a banda serviu de trilha sonora para boa parte dos meus vinte anos, então resolvi que mal não faria. O que eu não esperava é o quanto de bem ele realmente me traria.

A música do Los Hermanos sempre teve uma conexão forte com sentimentos e emoções. Amor, desamor, saudade, traição, solidão, inadequação e frustração são temas recorrentes nas letras. Há quem diga que é mais focado em dramas adolescentes. Mas, do topo do meus 40 anos, eu afirmo que continua fazendo muito sentido. Os instrumentais bebem nas fontes basilares da nossa música, fazendo com que o som da banda seja brasileiríssimo. Eles sempre souberam casar o que estava sendo feito lá fora com a nossa MPB. Assim, juntaram Weezer com Caetano, Strokes com Roberto Carlos, Mr. Bungle com Arnaldo Antunes, e se tornaram uma banda referência para todos os grupos que surgiram no país desde então.

Os shows são uma catarse. O público canta com empolgação, botando para fora lágrimas, gritos e expurgando fantasmas. Sim, eu me incluo nessa galera. Chorei nas cinco primeiras músicas seguidas. Me senti conectado a momentos do meu passado. Trouxe algumas letras para o presente. Cantei para pessoas que se foram. E também para algumas que estão recém chegando. Exorcizei antigos amores. Mandei um presidente tomar no cu. Me senti um com aquela galera ao meu redor. E com aqueles carinhas no palco também.

A banda percorreu sua discografia desde a época hardcore de seu primeiro álbum até a melancolia acústica de seu disco final. Me fizeram lembrar por que razão continuam sendo uma das melhores bandas que já tivemos. Sinceridade, musicalidade, energia, continua tudo lá. Diferentes vontades musicais acabaram separando a banda. Normal, saudável até. Mas ver eles novamente no palco faz a gente clamar por um disco novo. Um gostinho de possibilidade surgiu no novo single, “Corre Corre”, lançado em paralelo com essa turnê. Se é um primeiro passo ou apenas um aperitivo, só saberemos no futuro. O que é certo é que a banda escreveu uma história incrível, com páginas e mais páginas de músicas inesquecíveis, uma experiência de conexão entre músicos e fãs inigualável.

Depois de duas horas de show, a sessão chegava ao fim. Exausto e renovado, voltei para a casa sabendo que fui coroado rei de mim.

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