Comportamento

Dos fracassos

Dos_Fracassos
imagem: Cassiano Rodka

Esses tempos tive a oportunidade de participar de um evento bem bacana chamado FuckUp Nights. Ele faz parte de um movimento mundial de encontros para compartilhar fracassos, na ideia de que fracassos são uma merda, mas ensinam muito. Aí, conversando com algumas pessoas sobre o evento, ouvi mais de uma vez: “Mas tu vai falar sobre o quê? Tu não tem fracassos”. q? Fui até olhar no dicionário: “falta de êxito; malogro, derrota”. Se fosse só por isso, eu poderia falar de tantos jogos de handebol que perdi e como eles me ensinaram AFU para poder ganhar tantos outros. Mas eu não tô aqui pra ficar me justificando e, sim, pra pensar o que é o fracasso, de onde vem, do que se alimenta.

Então vamos pensar nesse sentido da derrota. Em que momentos veio aquele sentimento de derrota? Não passar numa seleção, perder emprego, investir tudo num projeto e ele não deslanchar, receber um fora da pessoa amada… Poxa, a vida é cheia de fracassos, em diferentes níveis e com inúmeras possibilidades de aprendizagem. Mas, sem dúvida, sem fracassos não tem como. Estou num momento mais de boas e tem várias coisas massa acontecendo, mas já passei por outros mais foda também. Inclusive, teve alguns em que eu me senti fracassada real: sem rumo, perdida, como se tudo que eu tivesse feito não servisse pra nada e eu estava aqui, na merda, sem saber como sair dela e desesperada, só me afundando mais. Aí vem a novidade, mores: se você não passou por isso, vai passar. BRACE YOURSELF. Sabe o que é louco? Aquela blogueira que você acompanha que tá sempre pleníssima também vai. E o milionário daquela empresa incrível que você tanto admira também. E tá tudo bem. Faz parte.

Talvez o que justifique essa impressão de que o fracasso não acontece seja o nocivo discurso do sucesso. Do “seja bem sucedidx”. “VENÇA”. Esse discurso fala de final, e não de processo. De meta. E, por mais que seja uma obviedade, é importante lembrar que essa meta implica em fracassar muitas e muitas e muitas vezes. Quem vê só o sucesso não vê o corre todo; aí fica bem fácil se pegar pensando que tem uma cambada de gente que parece bem-sucedida, super sabendo o que está fazendo e só ahazando no rolê; enquanto nós, reles mortais, estamos aqui tentando fazer o básico do básico pra manter a sanidade mental e conseguir pagar os boletos. Só que não é bem assim. E eu escrevo sobre isso também porque me obrigo a ler o meu próprio discurso – sim, eu também acredito na falácia da existência sem fracassos de vez em quando. Aí me forço a lembrar da imprevisibilidade da vida, da nossa mutabilidade e da resiliência.

Talvez seja esse tal de retorno de Saturno que esteja me fazendo pensar tanto sobre fracasso, sucesso, rumos da vida, existência e sei lá mais o quê; afinal, fazer 30 anos tem se mostrado um questionamento absurdo de tudo que se fez e de pra onde se quer seguir. A gente até pode reclamar muito, buscar justificativa na merda ou até bancar a invejosa autocentrada questionando o universo de “por que essa coisa incrivelmente maravilhosa que aconteceu com a vizinha não pode acontecer comigo?” – quem nunca? Mas, até agora, isso não tem se mostrado muito útil não; afinal, trajetórias não são comparáveis, fracassos não são evitáveis e não existe sucesso, artigo definido.

O que tem se mostrado realmente interessante e proveitoso é analisar a trajetória, pensar nos aprendizados que tive e como cheguei até aqui. É exercitar a escuta, tanto de mim quanto de outrxs que topam compartilhar suas experiências também – inclusive as que não saíram como previsto. É aceitar a inevitabilidade dos fracassos e, afinal, exercitar uma concepção epistemológica de aprendizagem: ela acontece na interação e ela é constante. Ufa, ainda bem.

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