Cinema

Bacurau (Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

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A placa que abre o filme pode ser lida de diferentes formas.

               É difícil ir ver “Bacurau” sem uma enorme expectativa. É o terceiro filme de Kléber Mendonça Filho, e os dois anteriores (“O Som ao Redor”, 2012 e “Aquarius”, 2016) além de excelentes críticas também são retratos e análises acurados das mudanças e contradições do Brasil no início do século XXI. Se não bastasse, Bacurau foi extremamente bem recebido no Festival de Cannes, um dos mais prestigiados do mundo. O longa foi indicado à Palma de Ouro e recebeu o Prêmio do Juri no balneário francês. Se tudo isso não bastasse, o zumzumzum em cima do filme e da postura combativa e engajada do cineasta pernambucano também contribuíram para que a estreia de Bacurau fosse das mais aguardadas da temporada. Foi feito barulho também em função da definição, na semana passada, do candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. “Bacurau”, que era um dos mais cotados, foi preterido por “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Ainouz. Não por acaso as salas de cinema estiveram cheias na primeira semana do longa e ele permanece firme e forte em várias sessões, inclusive em alguns mega-cinemas de shopping centers.

                O que dizer sobre o filme? Bom, acho que o melhor a dizer é que ele entrega. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que foi o diretor de fotografia de “O Som Ao Redor” e “Aquarius” e assina a direção de Bacurau junto com KMF) constroem com muita calma uma trama que coloca a pequena vila de Bacurau, no interior de Pernambuco, como protagonista. Num futuro (não muito) distante, o Brasil passa por agravamentos das tensões sociais e políticas que já desgastam o país ainda hoje. O roteiro de Dornelles e Mendonça acerta ao escapar da armadilha de explicar didaticamente como está o Brasil e como chegou até ali. Nós temos pistas que vem por uma manchete de jornal, uma notícia na TV, um comentário de algum personagem. Além disso, o contexto geral é menos importante em Bacurau, um vilarejo esquecido pelo tempo e curiosamente deletado dos mapas eletrônicos, também. “Bacurau” é uma grande alegoria sobre o Brasil e o mundo hoje. O filme fala sobre banalização da violência, sobre o culto às armas, sobre desigualdades sociais, sobre racismo e sobre fundamentalismo religioso, sobre a seca e sobre políticos populistas sem falar diretamente sobre nada disso. Nesse sentido “Bacurau” é ainda melhor que os filmes anteriores de Kléber Mendonça Filho, que por vezes soavam um tanto panfletários por fazerem uma crítica social mais direta.

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“Bacurau” não tem protagonista: a cidade inteira é o personagem principal.

 A fotografia e a montagem contribuem para que “Bacurau” seja, em grande parte, um filme de suspense cuja tensão vai crescendo organicamente desde o início até o final apoteótico. Algumas análises mais apressadas falam em referências a Tarantino, mas acho essa comparação preguiçosa. Ao contrário do que os Millenials pensam, não foi Tarantino quem inventou a violência no cinema. As referências, para mim, são Sam Peckinpah, na questão da ação, e Gláuber Rocha, na ambientação. “Bacurau” é um thriller de suspense que se transforma lentamente num faroeste na caatinga, onde o meio (as casas, as plantas, o céu, a água) também desempenham papeis importantes.

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Sônia Braga como Domingas, a médica.

Os personagens que nos são apresentados são arquétipos: a médica, o professor, a mãe-de-santo, o guerrilheiro. O micro-universo de Bacurau e de seus personagens é uma vila no interior de Pernambuco, mas poderia estar em diferentes lugares do Brasil. É urgente destacar a participação de Sônia Braga como Domingas, a médica de Bacurau. A atriz que já havia trabalhado com o diretor em “Aquarius” mostra em “Bacurau” que aos 69 anos está no auge do seu talento e de sua potência. Boa parte do elenco de apoio de “Bacurau” é formada pela população de Parelhas, Rio Grande do Norte, onde o filme foi gravado. É um detalhe que ajuda a dar a crueza local para o longa. Com exceção de Sônia Braga, os atores do longa (Barbara Colen, Thomaz Aquino, Karine Teles, Wilson Rabello, Udo Kier…) são rostos pouco conhecidos, apesar de bastante experientes.

Eu sai da sessão de “Bacurau” me sentindo mal. Com o estômago revirado. Quer dizer que o filme é ruim? Pelo contrário. “Bacurau” é sensacional. Sem sombra de dúvida é o melhor filme de Kléber Mendonça Filho até agora. O que dói é ver toda aquela violência, aquela crueza, aquela desumanização e perceber o quanto o filme é pertinente, o quanto é atual, o quanto ele é necessário. “Bacurau” nos mostra o que nos tornamos, e não é um retrato bonito de se ver. O que faz, acredito com que seja mais necessário ainda. Não deixa de ser de certa forma um alento e um alerta o fato de que a salvação de Bacurau seja planejada e executada a partir do museu da cidade. A nossa história, a nossa memória, são o caminho para que possamos continuar sendo quem somos e resistirmos.

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Na comunidade de Barras, município de Parelhas, interior do RN, o elenco e a equipe de “Bacurau” comemoraram o fim das filmagens, em 2018.

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