Cinema

Coringa (Todd Phillips, 2019)

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                Na semana passada Martin Scorsese deu uma declaração polêmica sobre filmes de herói (especificamente sobre filmes da Marvel, mas ele falava de filmes de herói em geral). Numa segunda entrevista Scorsese reforçou o ponto e chegou a dizer que os proprietários de cinema deveriam ter algum compromisso em restringir o número de salas destinado a esses filmes, reservando espaço para “filmes que são narrativas” (as declarações do diretor de “Taxi Driver”, “Touro Indomável”, “Os Bons Companheiros”, “Casino” e “O Rei da Comédia”, entre outros, você encontra AQUI e AQUI ). Eu entendi o que o Scorsese quer dizer e até certo ponto eu concordo com ele. Os filmes de heróis são, nesse momento, o veio de ouro do cinema. Desde os anos 1930, pelo menos, o cinema se equilibra na dicotomia entre “Arte” e “Indústria do Entretenimento”. Só em 2019 dois filmes da Marvel (“Capitã Marvel” e “Vingadores: Ultimato”) arrecadaram mais de um bilhão de dólares, tendo o segundo deles se tornado a maior bilheteria da história do cinema. O apelo de Scorsese por mais diversidade nas salas de cinema é um diagnóstico de uma transformação que vem acontecendo a bastante tempo e da qual, ironicamente, ele tomou parte: no final dos anos 1970 foram filmes como “Tubarão”, “Guerra nas Estrelas” e “O Poderoso Chefão” que criaram o modelo blockbuster de ocupação dos cinemas do qual os filmes da Marvel são o filhote mais bem acabado.

                Mas por que começar por aqui? Porque fiquei pensando nessa fala do Scorsese ontem ao sair do cinema tendo assistido mais um “filme de herói”. Ou, enfim, mais ou menos. “Coringa” (Joker, Todd Phillips, 2019) é um filme sobre um personagem da DC. Há outros personagens que aparecem no longa, mas de forma alguma ele está “encaixado” no confuso universo cinematográfico dos heróis DC/Warner (ainda bem). Quando o filme foi anunciado com direção e roteiro de Todd Phillips, ninguém sabia direito o que esperar dele. Phillips, lembre-se, tem como destaque no seu currículo “Se Beber Não Case” (The Hangover, 2009). Quando o excelente Joaquin Phoenix (“Ela”, “Vício Inerente”) aceitou o papel, todo mundo ergueu a sobrancelha. Esse mesmo papel tornou Jack Nicholson milionário e rendeu um Oscar póstumo a Heath Ledger (com dois excelentes trabalhos completamente diferentes), mas rendeu um rotundo fracasso ao bom Jared Leto. Alguns ainda dizem que o melhor Coringa de todos é interpretado por Mark Hamill (ele mesmo, o Luke Skywalker), que faz a voz do personagem na série de jogos de videogame “Arkham” e no seriado animado do Batman dos anos 90. Aceitar, portanto, um papel como esse é ter muito mais chance de se queimar do que de conseguir fazer algo bom. E para bagunçar um pouco mais o coreto, o prestigiadíssimo Festival de Veneza premiou “Coringa” com o Grande Prêmio do Júri. Diferente do Oscar, Veneza é um festival que prestigia a qualidade artística e tem uma curadoria feita por cineastas e especialistas. Essa mistura improvável de Joaquin Phoenix, Todd Phillips e premiação em Veneza me deixou como o personagem de Leonardo de Caprio em “Django Livre”: “Cavalheiros, vocês tinham a minha curiosidade, agora têm a minha atenção.”

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Cesar Romero, Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto já foram o Coringa na telona.

                “Coringa” é um BAITA filme de estudo de personagem. Todos nós sabemos onde aquilo vai chegar, já que conhecemos o personagem. A história que Phillips pretende contar, no entanto é outra: como a sociedade consegue destruir um homem ao ponto dele perder completamente a moralidade, a noção de certo e errado. Apesar de conseguirmos pinçar uma ou outra referência aos quadrinhos, como “A Piada Mortal”, de Alan Moore, o que nos é apresentado aqui é outra história: Gotham City é uma cidade suja em todos os sentidos: além da pobreza, da desigualdade e da corrupção há uma greve de lixeiros que faz com que sintamos um clima sufocante. Ironicamente a cidade (e o tom do filme) lembram muito a Nova Iorque de “Taxi Driver”, numa escolha corretíssima do diretor. A cidade, em si, é personagem do filme. Ela é egoísta, doente e tóxica também. Conforme aprendemos na primeira cena, Gotham City é extremamente agressiva, em contraponto a Arthur Fleck (Phoenix), um homem frágil, física e psiquicamente, e que tenta levar a vida como palhaço, fazendo as pessoas rirem. Não há muitos motivos para rir em Gotham. O trabalho de Joaquin Phoenix é notável. Podemos perceber que, na medida em que o personagem vai sendo vilipendiado, ele vai se quebrando não só mentalmente, mas fisicamente também, tornando-se cada vez mais torto e alquebrado. O ator levou seu trabalho para uma direção diferente dos Coringas anteriores no cinema e fez uma interpretação muito física, com as linhas do rosto carregadas e um trabalho sensacional em um detalhe que torna-se fundamental: a risada. Uma risada que não significa alegria, mas ansiedade, desespero, agonia e várias outras coisas. Que termina, muitas vezes, num engasgo de dor. Se o filme não fosse bom (e é), valeria só para ver Joaquin Phoenix. Numa outra alusão indireta a Taxi Driver, temos Robert De Niro como Murray Franklin, o apresentador de talk show que era o ídolo de Fleck e com quem ele fantasiava entrevistas, ensaiando desde a entrada no estúdio até a maneira de sentar na poltrona.

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Tentar rir numa sociedade absurdamente opressora pode levar a lugares sombrios.

                “Coringa” é um filme que fala das agonias e urgências dos nossos dias. É um filme que investiga até onde a falta de empatia pode empurrar as pessoas. É um filme que toca numa série de outras questões (sem nunca se aprofundar, é verdade), como a questão da (falta de) controle sobre armas, sobre sistema público de saúde, sobre doenças psiquiátricas e como a sociedade não sabe lidar com elas. Muita gente criticou o filme não pela obra em si, mas por ele ser, de certa forma, o “porta voz” dos anseios dos incels e pelo que ele poderia incitar. O bom filme de Todd Phillips não pode, nem deve carregar essa culpa. Historicamente a arte é apropriada por discursos: Charles Manson usou músicas dos Beatles quando matou Sharon Tate. Os meninos de Columbine se inspiraram no visual de “Matrix”. Querer dizer que “Coringa” pode levar a tiroteios é confundir, mais uma vez, consequência com causa. O fato de muita gente se enxergar nas soluções encontradas pelo Coringa (que é um vilão, vale lembrar) diz muito sobre a sociedade de hoje e muito pouco sobre o filme que, repito, é muito bom.

                 “Coringa” consegue, a partir da matéria-prima de “filme de herói”, ser um pouco mais. Foge das narrativas surradas da jornada do herói e nos traz angústias e reflexões sobre o mundo no qual vivemos. Não era isso que o Scorsese queria? Pois então.

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