Música

Os melhores discos de 2019

melhoresde2019

Em 2019, eu escutei muita música brasileira. E não é por acaso: uma avalanche de bons artistas tomou conta da cena atual. Minhas caixas de som transbordaram letras cantadas em português, batuques afrobrasileiros e arranjos que não devem nada aos gringos. Me chamou atenção também que a maioria dos artistas da minha lista são mulheres, negras e com letras politizadas. Então senta aí e escuta o que elas têm para dizer.

Francisco, el Hombre – RASGACABEZA

Disco do ano tranquilamente! Em seu segundo álbum de estúdio, a banda enfiou o pé no acelerador e tacou gasolina nas composições. As canções são uma mescla de punk com funk brasileiro com eletrônico anos 90 com música latina. Sim, tudo isso junto! As letras são verdadeiras convocações à reação diante do conservadorismo que tem tomado conta do Brasil e do mundo. Os shows, enérgicos e catárticos, só deixam mais claro a atitude política da banda, unindo corações e mentes que se sentem sozinhas em um mundo cada dia mais cinza.

Jamie Saft – You Don’t Know the Life

O pianista nova-iorquino Jamie Saft junta forças novamente com o baixista Steve Swallow e o baterista Bobby Previte para mostrar como se faz um bom jazz contemporâneo. Parceiros de longa data do músico, o trio gravou junto pela primeira vez em 2014 no disco New Standard, e mais recentemente, em 2017, compuseram o excelente Loneliness Road, com a presença de Iggy Pop nos vocais. Nesse novo disco, quem brilha é o órgão Hammond de Jamie Saft, que costura as canções com seu som deliciosamente psicodélico.

Duda Beat – Sinto Muito

Em seu disco de estreia, Duda Beat se mostrou soberana no gênero que ela mesma definiu como “sofrência pop”. A pernambucana trouxe as letras sofridas do cancioneiro brega para o mundo da música pop, adicionando batidas dançantes e atualizando o discurso. Nas canções de Duda Beat, o amor é sempre efêmero, refletindo as relações atuais nesta era da informação rápida. Os instrumentais casam o pop com a música nordestina, trazendo referências de maracatu, frevo e baião. O resultado é colorido e melancólico ao mesmo tempo, em uma espécie de trip hop brasileiro com sabor oitentista.

MC Tha – Rito de Passá

A capa do álbum já dá a dica: MC Tha veste uma saia longa branca e um véu vermelho coberto por um boné e um par de óculos escuros. O rito de iniciação da cantora no mundo da música une batuques de umbanda com funk brasileiro. As letras mostram uma mulher guerreira, determinada em contar sua história do seu jeito, preparada para se reinventar sempre que for preciso. A cantora que dividia atenção com Jaloo no dueto de Céu Azul parece ter encontrado a sua própria trilha. Então abram os caminhos que ela vai passar.

Xênia França – Xenia

Em seu primeiro álbum, a cantora baiana traz uma elegante mistura de jazz com batidas africanas. Suas letras falam sobre raça e preconceito, colorindo os arranjos sofisticados com alertas sócio-políticos. Dona de uma presença de palco incrível – talvez herança de sua antiga carreira de modelo , Xênia faz as canções do álbum brilharem ainda mais ao vivo, muito bem acompanhada de uma seleção impecável de bons músicos. O disco foi indicado para o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo, e a faixa “Para Que Me Chamas?” na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa. Ninguém segura essa mulher!

Mahmundi – Para Dias Ruins

O quarto álbum da cantora carioca Mahmundi foi feito como um remédio para uma época em que as pessoas perderam um pouco do tato umas com as outras. Segundo a compositora, a internet e os celulares acabaram afastando as pessoas e criaram uma dificuldade em qualquer comunicação que não seja digital. As letras propõem um amor mais tátil e um autoconhecimento que ajude a encarar momentos de solidão e depressão. Tudo isso embrulhado num pacote de sonoridades oitentistas com sabor de verão. Assim fica fácil encarar os dias de chuva.

Mulamba – Mulamba

Um sexteto de mulheres pronto para encarar machos escrotos e dar um microfone a quem não tem voz. As letras são diretas, chamando os machistas na chincha e convocando as mulheres a tomar seu lugar de protagonista em um mundo tão centrado na figura masculina. O instrumental mistura a agressividade das guitarras roqueiras à delicadeza de um violoncelo e à força de percussões tribais. Além das canções politizadas, há espaço também para baladas belíssimas, que contrapõem os momentos mais duros do disco com uma delicadeza singular.

Mike Patton & Jean-Claude Vannier – Corpse Flower

Uma dupla dessas… não tinha como dar errado! O mestre das mil vozes se une ao arranjador de ninguém menos que Serge Gainsbourg e o resultado é um disco muito peculiar, que faz uma ponte entre o experimental e a chanson. Os arranjos são ao mesmo tempo elegantes e esquisitões, uma marca do maestro francês. Sob a batuta de Jean-Claude Vannier, Patton baixou o espírito de Gainsbourg, declamando muitas das letras em vez de cantá-las. O discurso é bem humorado, com palavrões e muito deboche, invocando o sarcasmo típico do compositor francês. É impossível não sentir sua presença no disco. E é bom demais ver que seu espírito segue vivo nessas canções.

Imani Coppola – The Protagonist

Em seu novo álbum, a multi-instrumentalista Imani Coppola apresenta diversas faces de sua persona musical. Iniciando com o country antirracista de Blackteria, a compositora deixa claro que vai falar sobre temas polêmicos em tom de deboche e clima de diversão. Baladas acústicas, faixas punk e músicas pop falam sobre racismo, feminismo e o caótico estado atual do mundo. Imani tocou todos os instrumentos e cuidou da produção sozinha, pois queria que o disco fosse a sua cara, expondo suas qualidades e seus defeitos. As letras e a atitude vieram de uma frustração com o mundo. A cantora decidiu tomar as rédeas de sua vida e inspirar as pessoas a também virarem protagonistas na transformação da sociedade. Simbora!

Harry Nilsson – Losst and Founnd

O compositor americano preferido de John Lennon está de volta nesse disco póstumo. Há décadas, sabe-se da existência das gravações que comporiam esse que seria seu último álbum. Depois da morte de Nilsson, o projeto foi engavetado e ninguém se atrevia a terminar sua produção. Neste ano, os filhos do músico decidiram finalizar o disco. A gente nunca sabe bem o que esperar de um álbum póstumo, mas as melodias e harmonias de Nilsson não decepcionam e as canções só ressaltam a excelência do compositor.

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