Música

A arquitetura da Trupe Chá de Boldo

IMG_4241
foto: Cassiano Rodka

Uma das primeiras bandas paulistas que conheci quando me mudei de Porto Alegre para São Paulo foi a Trupe Chá de Boldo. Um grupo de 13 músicos disposto a compor canções animadas e bem latino-americanas, sem medo algum de soar pop ou brega. É como se Tom Zé e Sidney Magal tivessem feito uma jam com a Blitz em plena Avenida Paulista no domingo. Em frente ao MASP, é claro. Existem bandas que são muito ligadas à sua cidade e o seu som nem traduz muito bem quando tocado em outras regiões. E, pra mim, a Trupe é assim: a CARA de São Paulo.

Com quatro álbuns na bagagem, o grupo desenvolveu uma sonoridade ao mesmo tempo pop e experimental, com letras poéticas e políticas. O ambiente urbano, o ativismo político e a celebração da sexualidade permeiam as canções da Trupe. A sensual “Na Garrafa” virou a “Smells Like Teen Spirit” da banda, tornando-se o clímax dos shows, quando a vocalista Júlia Valiengo faz um dueto com o percussionista Guto Nogueira, culminando em abraços lascivos em meio a crescente sonoridade da música.

Screen Shot 2020-02-18 at 12.17.06
foto: Cassiano Rodka

Mas o clima atual do país fez a banda voltar o foco para a sua veia política. Assim, foram surgindo as canções que compõem o recém-lançado EP Viva Lina, que celebra a obra e a personalidade da arquiteta Lina Bo Bardi. A italiana naturalizada no Brasil ficou conhecida por suas construções modernistas inspiradas na cultura popular, com áreas abertas que só se completariam com a presença das pessoas. Duas de suas principais obras serviriam de palco para a Trupe Chá de Boldo: o MASP e o SESC Pompeia.

A primeira apresentação que assisti da Trupe foi em um show de graça no vão do MASP. Nesta data, eles estrearam algumas das músicas que fariam parte do recente EP. Uma delas foi “Vão Livre”, que fala sobre a importância daquele espaço onde a banda estava se apresentando, pois se tornou uma área de resistência. O refrão uniu as pessoas presentes em um só desejo: “ele não / enquanto houver o vão / o canto é esse lugar / cantando ele não”. Quase dois anos depois, a mesma canção foi entoada no show de lançamento de Viva Lina e o efeito foi ainda maior, com o público bradando o refrão como um mantra catártico e necessário.

 

Já que as novas músicas foram inauguradas na principal construção de Lina Bo Bardi, o MASP, o lançamento do EP não poderia ficar para trás. O show de estreia do disco foi realizado no Teatro do SESC Pompeia, outra obra marcante da arquiteta, um espaço moderno com áreas amplas prontas para serem preenchidas por pessoas com fome de cultura.

O show começou com a mesma canção que abre o EP, uma regravação de “À Lina”, faixa que encerrava o álbum de estreia da banda, “Bárbaro” de 2010. A música foi a primeira homenagem que a Trupe fez à arquiteta, mostrando que a ligação com ela existe desde o início da carreira. A partir daí, o grupo percorreu todos os seus álbuns, pincelando especialmente as faixas com teor político. Do EP, a marchinha “Parque do Bixiga” soou em defesa da área tombada que Silvio Santos reivindica como sua propriedade. O entorno do Teatro Oficina, outra obra de Lina, é patrimônio público, mas o apresentador de TV tem intenções de transformar o parque em construções que deem lucro, e a Trupe manda o recado: “Ô Silvio, assim fica difícil / Nenhuma pipa sobe mais / Onde só cresce edifício / Deixa pra lá esse negócio / De topa tudo por dinheiro / Muito melhor que um milhão / É gozar Bela Vista o ano inteiro”.

O show contou ainda com canções que devem fazer parte de um novo álbum. Em setembro de 2019, a Trupe se desafiou a fazer quatro apresentações bem distintas durante uma temporada no Centro da Terra. A cada segunda-feira, o grupo realizava um show com temática diferente. A última apresentação contou apenas com músicas inéditas, algo arriscado para uma banda fazer. Mas, curiosamente, foi a noite mais cheia. Nela pudemos escutar em primeira mão as faixas que foram incluídas no EP Viva Lina, além de canções que devem ser gravadas em 2020. Foi como estar em um ensaio, vendo as músicas tomarem forma. Muitas delas foram tocadas no show de lançamento do EP, em roupagem mais definitiva. É o caso de “Onça Ouça”, que era cantada originalmente pelo guitarrista Gustavo Cabelo, compositor da música. Atualmente ela é cantada pela vocalista e o arranjo ficou mais funk, de deixar o Prince orgulhoso. Outra novidade é a divertida “Bacurau”, que cita várias palavras que têm algo em comum, mas não vou estragar a brincadeira e contar o que é, escutem ela abaixo e descubram.

O palco do Teatro do SESC Pompeia foi perfeito para uma banda grande como a Trupe. Como o espaço é como uma arena, o grupo pôde passear pelo palco. Não só os vocalistas, mas também os metais do grupo, que andavam para o centro do tablado durante os solos. O setlist foi muito bem pensado e a banda estava afiadíssima, resultando num show irretocável. Mesmo a decisão de não incluir o hit “Na Garrafa” foi muito assertiva. A mensagem era clara: hoje é dia de celebrar a cultura e de gritar em coro ELE NÃO.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: