Comportamento

Do fim

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Tive um companheiro que sempre dizia o quanto “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” era um filme incrível. Eu não gostava. Mas, naquele movimento de ~me aproximar das coisas que meu amor gosta~, revi. Não bateu. Desisti e esse sempre foi um ponto de desacordo – e tudo bem.

Dez anos depois, o filme já esquecido, fui morar dois meses em outro país. Eram férias, estava bem instalada, vivia numa vibe absolutamente tranquila em que meu maior problema era decidir o que eu iria conhecer no dia: eu só não queria que aquele tempo acabasse. No ano seguinte, quando minha sobrinha compartilhou o mesmo desejo em relação ao seu intercâmbio, eu, já mais calejada, disse que era bom justamente porque tinha fim.

Na minha viagem, era porque eu não precisava me sustentar que eu estava tranquila, afinal eram férias – e o dinheiro para isso já estava reservado. Pelo mesmo motivo eu tinha tempo, e não precisava me preocupar em descobrir os lugares correndo como normalmente se faz em uma viagem. Eu sabia ser provisório, então não me incomodava com a casa ser longe do centro ou com o roupeiro pequeno – inclusive, tudo bem em quase sempre usar as mesmas roupas que somavam os 10kg de bagagem que levei. No calor do momento tudo parecia incrível e, por isso, eu queria que fosse infinito.

O fim trazia realidade praquela idealização – aff, realidade, quem te convidou pra brincar? Aí que, este ano, me deparei novamente com essa dura realidade de aceitar que as coisas têm um fim, pois sabia que o meu perfeito mês de janeiro terminaria e deixaria um coração despedaçado. A crônica da morte anunciada começou em dezembro: coloquei todos os escudos possíveis, afiei as pontas das espadas, criei um abismo de distância do mundo e decidi que não iria me jogar naquele mês perfeito para não sofrer depois. Eu sou ridícula né, mas quem nunca?

Aí, sei lá de onde (inconsciente, corre aqui), decidi rever o incompreensível filme. Continuei não gostando. Só que dessa vez eu ouvi um diálogo, um único diálogo, que fez valer a pena:

– Então é isso Joel. Vai acabar em breve. 

– Eu sei.

– E o que fazemos?

– Desfrutamos*.

Guardei os escudos e as espadas (não consegui jogar fora, um dia ainda terei essa coragem). Encurtei as distâncias, me entreguei e tive um mês realmente incrível. Doeu quando acabou, com certeza. Mas vivi. Então percebi que o fim não precisa ser algo ruim, desastroso, uma conclusão. Ele pode ser convite. Convite pra entrega, pra reflexão, pra mudança.

Em tempos de pandemia, teletrabalho, ansiedade e isolamento estamos lidando com frequência com o “é o que dá pra fazer no momento”. Há muitas coisas provisórias e isso é angustiante. Mas, definitivamente, estamos vivendo o fim do mundo como o conhecemos. Só que dessa vez ninguém avisou, não deu tempo de desfrutar antes de se trancafiar em casa. Não rolou fazer um estoque de abraços, dar um beijo na vó ou ir ao cinema – e sei lá quando vamos poder fazer isso de novo. E é absolutamente frustrante perder isso tudo assim, sem aviso. Ou melhor, ignorando os avisos da ciência.

Nós não sabemos como sair do contexto atual. Não sabemos como vamos voltar e nem pra onde voltar depois de tanto tempo em casa. Porém, como todo fim, ele é convite. Pra quê? Talvez pra questionar as formas de nos relacionarmos. Aprendemos que uma ligação de vídeo pode ser algo absurdamente próximo, mas que abraços são realmente insubstituíveis. Percebemos que algumas organizações sociais não funcionam (ou funcionam para instituições ou pessoas específicas), e talvez seja o momento de fazer essa crítica e mudar as coisas. A necropolítica está escancarada e a minha questão é: como vamos viver depois disso?

* – This is it, Joel. It will be over soon.

– I know. 

– And what do we do?

– Enjoy it.

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