Música

Tragam os alicates que a Fiona quer sair!

Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters

Sempre que Fiona Apple lança um álbum, ela oferece não apenas uma seleção de canções, mas um manifesto. Lírico e musical.

Com “Fetch the Bolt Cutters”, a cantora mais uma vez mostra que traça seu próprio caminho, desligada de tendências e conectada às suas ideias e emoções. Indo na direção oposta do resto do mundo, ela aposta em músicas bastante cruas e analógicas, com foco no ritmo. Baterias e percussões com andamentos quebrados fazem o chão para desfilarem as belas harmonias vocais da cantora.

Fiona sabe muito bem tirar o melhor de sua voz, seja sussurrando ou berrando. A letra é quem manda. Gritos primais ecoam em “Rack of His” e “Cosmonauts”, remetendo aos berros finais de John Lennon em “Mother”. Já os versos da faixa-título são falados pela cantora, como alguém contando uma história para um(a) amigo(a). Fiona sabe inclusive usar as falhas na voz, como quando opta por deixar sua inconstância nas notas que ela estende em “I Want You to Love Me”. Há uma verdade naquela tentativa de manter a nota soando. Há beleza na fragilidade daquele simples momento inexato.

O piano, que antigamente dominava as suas canções, aparece de vez em quando para dar umas pinceladas precisas no arranjo. Com exceção das duas primeiras faixas, “I Want You to Love Me” e “Shameika”, o resto do disco não é guiado pelas teclas, mas por voz e percussão, culminando na genial “Relay”. Aqui, a compositora cria uma faixa atmosférica e extremamente rítmica, onde os instrumentos de corda surgem apenas para colorir a conversa melodiosa de Fiona com a percussão.

O baixo acústico de Sebastian Steinberg ganha destaque em várias faixas, em especial em “Fetch the Bolt Cutters”, trazendo ares de “Walk on the Wildside” do Lou Reed para a faixa-título. Em “Heavy Balloon”, um baixo mais agudo (quase uma guitarra) sussurra no ouvido direito enquanto um mais grave marca o groove no esquerdo. (Aqui é um bom momento para eu sugerir: escute esse álbum com fones.)

Fiona Apple, Drums and Dogs

A produção é caseira, mas tem uma mixagem impecável. Sons do cotidiano surgem nas faixas, como o cachorro da cantora latindo na faixa-título. Podemos ouvir ruídos de gravação ao final de “Cosmonauts” e um suspiro de quem já está cansada de repetir takes no início de “For Her”. Em época de quarentena, essa ambiência caseira faz muito sentido. Provavelmente não foi intencional, mas funciona perfeitamente neste momento de reclusão. Além de aproximar o ouvinte, pois podemos sentir que estamos ao lado de Fiona enquanto ela grava.

Há uma perspicácia nas escolhas musicais da compositora que faz as melodias e harmonias serem intrigantes. Elas ficam na cabeça mesmo sem ser óbvias. Despertam uma necessidade de escutar as faixas de novo e de novo, como se estivéssemos despindo várias camadas, cada vez mais adentrando naquele universo particular de Fiona.

Sobre o título, a cantora revelou que veio de uma cena da série “The Fall” onde a atriz Gillian Anderson, interpretando uma policial, pede que “tragam os alicates” para abrir uma porta trancada. “É sobre não ter medo de falar”, esclareceu sobre o tema do disco. Escancarando o seu silêncio, Fiona Apple compôs uma obra onde a tríade soberana da música – melodia, harmonia e ritmo – mostra a sua força de forma crua e arrebatadora.

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