Cinema

O Novo Cinema de Terror

Qual foi o primeiro filme de terror da história? Se a gente definir como filme de terror aquele que faz os espectadores terem medo, a ponto de levantarem das cadeiras e saírem correndo, provavelmente o primeiro filme exibido em público foi um filme de terror. Em dezembro de 1895, os irmãos Lumiére exibiram “Trem Chegando na Estação” e as pessoas da plateia saíram às pressas do salão do Grand Café porque achavam que o trem sairia da tela e passaria por cima deles. Brincadeiras à parte, o cinema sempre tentou fazer aflorar as emoções das pessoas, e o gênero de terror está presente desde o início. Não por acaso, o primeiro filme de terror com menções ao sobrenatural é de menos de um ano depois da exibição dos irmãos Lumiére: em 1896, o lendário Georges Mélies lançou “A Mansão do Diabo” (Le Manoir du Diable, Georges Mélies, 1896).

Assista “A Mansão do Diabo” (1896), do genial Georges Mélies

De lá para cá, o terror evoluiu junto com o cinema. Dos monstros da Universal nos anos 1930 até os serial killers sobrenaturais dos anos 1980, passando por exorcistas e profecias, todos nós já sentimos aquele medinho sentados na poltrona do cinema ou no sofá de casa. O certo é que os filmes de terror são sempre um reflexo muito apurado da sua época, uma vez que eles falam sobre aquilo que tememos. Do Frankenstein ao Freddy Krueger, do Monstro da Lagoa Negra ao Leatherface, do King Kong ao Damien, sempre encontramos nos filmes uma parte de nós mesmos (e, às vezes, uma parte para a qual não gostamos muito de olhar).

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“O Monstro da Lagoa Negra”, clássico dos monstros da Universal que recentemente foi revisitado.

Nos últimos anos, os filmes de terror em Hollywood vêm ganhando um novo frescor. Alguns diretores jovens aparecem com ideias diferentes e dialogam com o nosso tempo. Hoje vou falar um pouco sobre dois diretores que estão tendo muito sucesso na renovação da linguagem dos filmes de terror nos dias de hoje: Ari Aster e Jordan Peele.

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O longa de estreia de Ari Aster, “Hereditário” (Hereditary, 2018), é uma sensacional homenagem aos clássicos do gênero. Um filme que fala sobre possessão demoníaca, mas que também é sobre relações familiares, laços quebrados e dependência emocional. O filme revisita clássicos como “A Profecia” (The Omen, Richard Donner, 1976), “O Exorcista” (The Exorcist, William Friedkin, 1973) e “Repulsa ao Sexo” (Repulsion, Roman Polanski, 1965). Aster conta sua história nos fazendo sentir medos diferentes num crescente. No início do filme, temos um sentimento de desconforto (ajudado maravilhosamente pela atuação de Milly Shapiro como Charlie) que vai crescendo até o final. Perto do clímax, o diretor brinca com o clássico jumpscare, quando tomamos aquele “susto” ao ver algo pular em direção à câmera ou aparecer repentinamente na tela. O jumpscare é um recurso usado à exaustão nos filmes do gênero e, frequentemente, fica batido, mas não é o que acontece aqui. A atuação maravilhosa de Tony Colette merecia ter sido lembrada pelas premiações de cinema.

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O filme mais recente de Aster, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” (Midsommar, 2019) vai por um caminho completamente diferente. A protagonista Dani (Florence Pugh, que também foi esnobada pelas premiações por esse papel) busca reconstruir sua vida após uma catástrofe pessoal, partindo numa viagem com o namorado e os amigos dele. A jornada de Dani acaba dando muito errado (ou não, depende do ponto de vista) num filme que cresce e que também trata de questões como relacionamentos abusivos e a forma como nos ligamos (ou não) à família no século XXI.

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Já Jordan Peele apareceu para o mundo com “Corra!” (Get Out, 2017). Tanto em “Corra!” como no seu filme seguinte, “Nós” (Us, 2019), Peele se mostra um grande inovador. Misturando terror com ficção científica, Peele usa o cinema e o terror para trazer à tona a discussão que hoje é primordial nos EUA e no mundo: o racismo. Em “Corra!”, Peele brinca conosco ao nos fazer apegar e desconfiar dos personagens em diferentes momentos. O filme tem uma virada e no último terço faz uma homenagem aos clássicos filmes slasher de Hollywood.

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Já em “Nós”, o diretor, além da questão racial, fala (sem falar) muito a respeito das questões políticas nos EUA (há um trocadilho com o título do filme em inglês, inclusive), sobre o medo de imigrantes e sobre o quão assustadores podemos ser para nós mesmos. Se o filme em si já não fosse bom, a sempre ótima Lupita Nyongo já o faria valer a pena.

Ainda sobre o trabalho de Peele, ele foi o responsável pela produção do remake de “Além da Imaginação” que está disponível no Prime Video. O diretor deu à clássica série de terror/ficção uma roupagem nova, levando as discussões sociais atuais para a telinha do streaming.

Enfim, para quem gosta de levar seus sustos, é bom prestar atenção nos trabalhos desses dois diretores. Ambos conseguem ao mesmo tempo fazer referência aos clássicos e injetar energia nova num gênero clássico.

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