Literatura

Arrebentar

imagem: Cassiano Rodka

Os desenhos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nítidos nas paredes,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
me pelam.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto-me ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pequena.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desorientada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Acostumada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Trancada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O ar encosta a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
minha boca.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Os olhos grudam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as cores.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E minha pele ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
arrepia.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A notícia inunda a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
moldura.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O anel desprende-se⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a borbulhar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não posso mais ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
disfarçar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E nem segurar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A parede, agora,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
me define. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mostra o meu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
andar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O norte ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é estar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto medo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas excito a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
alma há muito ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
adormecida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Era preciso ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
acordar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Já não posso⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
escapar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Fica tudo a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
desabar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Na moldura,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pintada ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em minha frente. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nas cores, que⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
refletem neste⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
olhar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ou nos meus ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
olhos, que ali⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
deitam-se…⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Porque são ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
parte desse desenhar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parte em desatar ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o arco que me veste. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E este fundo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quer se aventurar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Derramar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Deslaçar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Despertar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Despir-se dessa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
argola apertada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tuas tranças ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
carregaram-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a este existir.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este assistir.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este sentir. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este viver. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Caminhamos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Descobrimos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Amamos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou fora⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
da bolha; ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
finalmente.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tu me arrancas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de lá.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Agarras⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meus braços⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e puxa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Modela o ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meu eixo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Esculpe a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
minha alma.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dança no meu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
corpo.

Avança o meu
desejo.
Sem medo.

És pássaro
a comigo
sobrevoar.
Porque, sim,
me deste
asas. 

E, de repente,
passado estás. 
Atrás do tempo, 
em tempo.
Lembrança.
Estás em si…
Sustenido. 
Perdido.

Mas…
Sigo assistindo 
aquela ampola.
E, agora, me cobre
a sua sombra.
E a visito.
De quando em
quando.
Entro.
Saio.
Viajo.
Estado.

Mas os 
pássaros 
giram, 
a lembrar.
Sou parte 
tua.
És parte 
minha. 
Partimos.
Voamos.
Separados
estamos.


Texto inspirado em uma ilustração de Cassiano Rodka como parte do Desafio de Novembro do P2. 

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