Literatura

Carta à felicidade

imagem: Cassiano Rodka

Vó, qual é a cor⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
do sangue negro?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desculpa vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
naquele tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
eu não entendia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quando a senhora dizia:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Casem com um⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
homem branco⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que é para ir limpando⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o sangue⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, não entendia que sofrias⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não sabia das tuas cicatrizes⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tuas feridas ainda abertas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em carne viva⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Por isso te provocava:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O sangue tem outra cor?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sangue é tudo vermelho vó⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tem vergonha da tua cor?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Eu perguntava e sorria,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a vó cabisbaixa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
envergonhada,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não respondia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as palavras lhe fugiam.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, desculpa a demora⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em aprender⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
foram anos sem saber⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
como te dizer⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Talvez vó, porque⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a minha pele⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é mais clara que a tua⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meus cabelos se parecem⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
com os teus⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas me chamam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por outros nomes.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não me chamam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de macaca,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
negra da senzala,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
escrava…⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Houve um tempo vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que até me chamaram⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cabelo de Bombril⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
hoje não,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
hoje sou exótica,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que é um jeito de dizerem⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que não sou igual a eles⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sabe vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ainda assim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
fazem perguntas cínicas:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como você faz⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
para o teu cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ficar assim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como você penteia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o teu cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tua boca é natural?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, naquele tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
eu não entendia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Achava ofensivo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quando a senhora dizia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que o pai não era negro⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
era moreno clarinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que quando menino⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
era bem loirinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tinha um cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
bem lisinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e uma mulher da mão ruim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cortou e encrespou o cabelo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, o pai adora tua explicação⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
lembra?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
fica todo orgulhoso,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não é negro,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é moreno clarinho
que lhe presenteou
com uma neta
quase branca
Eu olhava para
a pele escura do meu pai
tão parecida com a tua
e não entendia.
Como deve ter sido
difícil vó,
sentir que tua cor
era ruim
que teu cabelo
era feio
Vó, como queria
ter soltado
teus cabelos
eles viviam presos,
esticados
feito o arame liso,
das cercas
que usam para
prender o gado
Queria ter dito
o quanto teus cabelos
eram bonitos
mas eu não sabia vó
não tinha como dizer
porque eu também
sentia vergonha
dos meus.
Aqueles coques
doíam vó
eu também queria
soltar meus cabelos
na infância
eu não podia
o volume do cabelo
ofendia
Vó, minha pele
nasceu clarinha
mas os meus cabelos
gritavam quem eu era
e de onde eu vinha
Mesmo com óleo
de mamona
banha de galinha
Andiroba e
todos os emolientes
meu cabelo
gritava de
onde eu vinha
Meu cabelo
rebelde
sarará
duro
de negro
ofendia!
Vó,
hoje consigo entender
o sofrimento
do racismo
de todo dia.
Vó,
hoje eu sei que
a senhora não entendia,
só sofria
Sofria vó
com o racismo
de todo dia
todo dia
todo dia.


O texto de hoje é da convidada Joziane Ferreira.

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