Literatura

Casa antiga

imagem: Isabel Dall’Agnol

Fazia muitos anos que ela não passava por ali. E, um dia, perdida, à procura do supermercado – “se ao menos, tivesse bateria para ligar o Waze”, ela pensou; mas, sim, em meio à pandemia, sua cabeça andava desligada –, deparou-se naquela rua, antiga às suas memórias, na qual descansam tantas e tantas histórias. 

Desacelerou. Então o carro passou a deslizar devagar; agora, a rua parecia tão pequena e os prédios e casas mais baixos. 

Não sabia o que a levara até lá – sem querer ou querendo –, mas pensava a respeito quando, de repente, no fim da rua, já próxima à última esquina que encostava naquela outra rua principal, a encontrou: a casa em que vivera a sua infância. Ou os seus destroços. 

Sim, a casa estava, mas já não estava. 

Estacionou de súbito e sem pensar. 

Assim, parada em frente à casa, percebeu de cara que a fachada, que era protegida por aquele muro de pedras e cerca de ferro, transformara-se em vidros. 

A porta da entrada, que encostava no canteiro de flores, assim como as grades que abrigavam cada passagem de um dos carros de seus pais, havia resultado em um deque cheio de mesas e cadeiras.

Sentiu algo por dentro, mas que não sabia identificar. Talvez a ausência do seu berço.

Então ingressou no local que, agora, era um restaurante com mais e mais mesas e cadeiras por dentro, bem como plataformas de comidas e bebidas que amplamente cobriam o que eram as salas de sua casa – já não havia paredes –, e com alguns garçons, todos mascarados e com aparência simpática. Ao menos com olhos simpáticos.

Seguiu caminhando devagar e percebeu que estantes faziam parte daquilo que era o seu pátio e que a parreira já não existia.

Ah! Aquela parreira! Que não dava uva, mas dava uma sombra gostosa e protegia as meninas e suas brincadeiras. 

Também notou que já não existia aquilo que eram os fundos da casa. 

Os fundos… Onde sempre encontrava o seu pai. Os fundos, que quase eram o seu pai, pois, como ele, rodeados de aventuras e imaginação. 

Então virou-se, pois chegara ao final do novo restaurante e, repentinamente, seus olhos encheram-se de lágrimas. Atravessou-lhe ainda mais a ausência daquelas paredes que viviam vestidas de quadros e pratos, colocados por sua mãe, misturando a sua essência com aquela casa.

E deu-se conta: não encontrava as meninas, nem o seu pai, tampouco a sua mãe. 

Ao olhar para a frente do restaurante, ainda da parte de dentro, percebeu que um dos garçons a notava e vinha a seu encontro. 

Já ia avisá-lo que estava de saída quando reconheceu, num cantinho, escondidas por uma espécie de muro de gesso, as escadas da sua infância. Para a sua surpresa, estavam quase intactas, mas não possuíam mais a antiga forração. 

Deparou-se com aquele homem à sua frente e soltou-lhe as palavras: “Poderia subir as escadas?”

Ainda que sem explicações, mas com um semblante que parecia entender o que se passava, o homem afirmou com a cabeça. 

Na subida, sentiu a ausência dos enfeites que rodeavam aquelas escadas, agora tão peladas, e das risadas e corridas das quatro meninas que ali brincavam.

Finalmente, no segundo andar, percebera que o pequeno corredor se mantinha – ainda que sem a forração –, mas que cada porta dos quatro cômodos agora era de vidro, assim como as janelas. Estranhas paredes de gesso dividiam os espaços dentro dos três quartos onde antigamente dormia e sonhava aquela família. 

Mas logo percebeu que já não eram os mesmos quartos, dificultando a presença de qualquer lembrança que ali houvesse morado.

Depois de espiar essas peças, sobrara, enfim, o banheiro, bem à esquerda do pequeno corredor, já sem forração. 

Resolveu olhar apenas para dizer que não deixou de passar pelo banheiro afinal. 

E, então, viu que o espelho ainda sentava sobre a pia de mármore, que deitava por cima das portas de madeira. Ainda havia o mesmo chuveiro com portas de vidro, assim como a mesma privada quadrada.

Então sorriu. 

A privada quadrada, motivo de tantas piadas de seu tio, ainda estava lá.

Ainda estava lá.

O banheiro ainda estava lá.

Assim, subitamente, ali à sua frente, a tal pia se encheu de quatro escovas de dentes, duas pastas, um copo azul, um porta-sabonete, algumas toalhas e o seu reflexo, agora infantil, acompanhado pela imagem de suas três irmãs, também crianças.

Ao fundo, passou a escutar alguma melodia dos Beatles, enquanto, aos pés da escada, ecoava a voz de sua mãe chamando para o jantar. 

Sim…

O banheiro ainda estava lá. 

Ainda havia um pedacinho de sua casa por fim; ali, no novo restaurante, na quase esquina da Bordini com a Cristóvão Colombo.

Sentiu, então, um alívio e deu-se por satisfeita. Despediu-se dos homens mascarados e dirigiu-se ao seu carro, que percebera tão mal estacionado. 

Ligou o motor, pegou a primeira à direita e partiu, dando-se conta que sabia o caminho para o supermercado, ainda que tão distante. 

O rádio ligou-se automaticamente. Quando as portas trancaram-se, – surpresa! – uma velha canção já dançava aos pés de seus ouvidos, gritando por “Hallelujah” e “Hare Krishna”.

Lágrimas e lágrimas deslizavam por seu rosto e pingavam nos seus lábios cheios de batom e sorridentes.

Foi quando percebeu o que a levara até lá: o destino, a sina, a saudade, sedentas de lembranças, atiradas no fundo da velha casa. 

Estas mesmas, que já pareciam tão distantes e insignificantes, mas que, na verdade, estavam vivas – e muito vivas – a partir da beira das escadas da antiga casa.

O passado, o presente, o futuro: não estão, estão, sempre estão…  

A disparar.

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