Piras

Significado

Eu nunca fui grande fã de praia. Tenho aflição do mar com seus moradores inusitados, melequentos e possivelmente incomodativos. Tenho medo da maré, do repuxo e de mãe d’água. Não gosto da sensação da areia no corpo, de parecer estar numa esfoliação sem fim e encontrar grãozinhos em tudo que eu tocar. O vento do litoral sul não é agradável e nunca tive tesão em ficar torrando no sol. Eu gosto é de ver o sol nascer e caminhar até a plataforma de Atlântida, ponto. Tem início, meio e fim.

Recebi um convite para passar uma semana na praia esse mês e qual não foi a minha surpresa em me deparar com uma Brunna se deleitando no mar, ficando com marca do bronzeado e reclamando bem pouco da areia. Me questionei se essa era uma daquelas coisas que a gente muda de gosto com a idade, tipo lichia ou whisky. E como, mesmo nas férias, meu cérebro gosta de ficar pirando sobre as coisas, fui buscar o que tinha de tão gostoso nesse passeio.

E era isso: o gosto. Essa praia não era praia, era recesso. Era pausa. Respiro. Fôlego. Me lembrei de como eu também não gosto de viajar em feriados porque eles, pra mim, significam trânsito, tumulto, dedo no cu e gritaria. De outra forma, é tipo comida de mãe, que tem gosto de colo. Ou pisco, que tem gosto de dor de cabeça. É claro que esse significado é completamente individual. Por exemplo, pisco pode ter gosto de Viña del Mar ou reggaeton pra outra pessoa, pra mim ele tem gosto de dor de cabeça por causa de um porre vergonhoso – e aí percebemos que o significado muda com a vivência. Estaria a definição num limbo entre o que esperamos que seja, o que já foi e o que pode ser? E com certeza uma grande fonte de conflitos é a suposição de que as coisas têm o mesmo significado pra todo mundo. Aquele “como cê tá?” pode ser só por educação mesmo ou pode ser “estou interessado em saber de você” ou pode ser “coisa mais linda da minha vida, queria perguntar isso beijando a sua cara” – iludida talvez. Como saber?

Em 2017 eu estava terminando uma pós em Santa Maria e estava com muita dificuldade na escrita, algo bem incomum. Depois de milhões de sessões de terapia (gostoso demais!), percebi que aquela pós era a única coisa que ainda me mantinha na cidade. Finalizá-la era dar um ponto final, e aí eu tinha que decidir o que fazer depois – que saco. Após a banca, eu desabei. Era um trabalho que significava encerramento. Tem trabalhos que significam superação, outros gritam IMPOSTORA na sua cara. Trabalhos acadêmicos podem ser bem maldosos, dependendo do eco em quem escreve.

E aí que ano passado redefini Carnaval após passar o feriado num festival de música que era quase um universo paralelo com pessoas bacanas acampando e se divertindo em shows, oficinas e cachoeiras. Carnaval deixou de ser um feriado de trânsito, tumulto e obrigação de ter que sair para significar encontro, onde quer que o encontro aconteça e do que quer que seja – pessoas, música, vibes, energias. Este ano vou ter que ressignificar Carnaval ou, então, ressignificar encontros. Bora?

Cuidem-se!

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