Piras

Germinar

Ando um pouco obcecada pela minha tradescantia. Convivemos há quase um ano, desde que ela chegou aqui pequenininha, apenas um galhinho que quebrou da grande pendente da casa da minha irmã. Não posso mentir: ela sofreu nas minhas mãos, coitadinha. Comecei com o basicão de deixar na água pra criar raízes e, até aí, tudo certo. Mas então decidi que ela ficaria linda num lugar que mal pega luz e plantada em uma lata fucking hipster. Sua vida ficou por um fio. Mas sou insistente e decidi colocá-la de volta na água. Ela, resiliente, criou novas raízes e foi plantada em outro vaso num lugar mais iluminado. O novo vaso era ótimo, mas a drenagem, não. A coitada já não me aguentava mais, e eu podia ouvir suas súplicas para deixá-la morrer em paz, mas lá fui eu replantar no mesmo vaso, regado a muitos pedidos de perdão e promessas de que eu estava fazendo o meu melhor. Então, ela pegou. E ali está, pendendo da prateleira, com não apenas um, mas dois (isso mesmo, DOIS) galhos já maiores que o original.

Só que me bateu um incômodo esse galho novo, por mais que ele seja um sinal de vida.  Por algum motivo quântico inexplicável, a gravidade ainda não atuou nele plenamente. Tá estranho, sabe? Não está estético – e nessa hora eu entendi o problema. Eu quero mandar nas plantas. Controladora euzinha? Capaz! Em minha defesa, eu sou iludida pelas milhões de referências de urban jungle do Instagram e do Pinterest em que as plantas já estão enormes e lindas e harmonizadas e… vivas. Posso dizer que minha tradescantia está me ensinando que foda-se o que eu quero: ela é viva e decide seus próprios caminhos, eu que lute.

Estou sabendo que eu não sou a única influenciada pela ideia de urban jungle e, se você sabe o que é uma begônia maculata, então bem-vinde ao clube. De minha parte, com certeza o isolamento teve um peso grande nessa aventura, um pouco por estar mais em casa, outro tanto pela necessidade de sentir vida. É isso, né? Vida. Se é vida, então tem que vir responsabilidade junto – e eu julgo mesmo quem sai comprando trezentas plantinhas só pra deixar o apartamento bonito, mas que não dá conta de cuidar de nenhuma delas. Se você é tipo eu, que não manja do paranauê, vai com calma, talvez uma por vez. Afinal, você tem que compreender um vasto vocabulário do mundo plantae, por exemplo “meia-sombra”. Sei lá o que é isso, sabe? É um conceito muito abstrato. É pegar sombra metade do dia? É um lugar “nubladinho”? Minha maranta triostar tem me mostrado que meia-sombra não precisar SOMBRA em si, mas não dá pra ser sol direto. Justamente por causa da incidência do sol, ela tem que ser trocada de lugar durante o ano e azar do meu projeto de decoração.

Mas mais difícil ainda é tentar entender os sinais. Você sabia que folhas com as bordas queimadas podem estar relacionadas a maresia, substrato muito rico, substrato muito pobre, substrato compactado, umidade do ar, muito frio, muito quente, ventos, deficiência de potássio, excesso de flúor, regas demais, regas de menos… e eu não citei todos! Então, basicamente, a meu ver, folhas secas podem ser qualquer coisa. Lembro uma vez que eu tive uma alergia e meu médico sugeriu que eu parasse de comer uns 30 alimentos e fosse voltando um por vez a cada mês pra descobrir o que tinha sido. Em termos de pesquisa, faz todo o sentido; mas acredito que eu ou a planta demoraríamos um bom tempo pra descobrir a origem do problema – e talvez fosse tarde demais. No meu caso, até hoje acho que foi o carré de porco do RU.

Pra facilitar essa leitura dos sinais, entendi que meu trabalho tem que ser contínuo: observar todos os dias pra buscar de antemão o que pode ser ao primeiro sinal de alteração. As plantinhas me ensinam a estar atenta. E como nem sempre consigo, volta e meia eu tiro umas fotos só pra poder comparar – tipo anotar a altura da criança no marco da porta, sabe? Eu real fico orgulhosa de acompanhar essa evolução. Plantas me ensinam a cuidar, mas também a deixar morrer. Elas têm seus ciclos e faz parte.

Cuidado é algo relativo. Também ingressei nesse universo mágico da compostagem, que demandou muito estudo (e tentativa e erro, vamos ser honestas). Uma das coisas incríveis é que, toda vez em que vou mexer no conteúdo da composteira, encontro uma semente germinada. Me sinto responsável por ela, de certa forma, e até que ponto não seria se dei todas as condições para que ela crescesse? É muito fácil eu simplesmente dizer: “nã nã nã, eu não pedi pra você germinar, não fiz esse cuidado todo, não”. Mas eu que coloquei ela ali, num ambiente cheio de nutrição, com uma temperatura delicinha, sem interferência de animais ou qualquer coisa assim. Então, sempre que possível, eu pego o brotinho e planto pra ver o que vai dar. Acho que isso diz muito sobre mim. A conclusão da menina de apartamento é que, além de decorar e propiciar um hobby quarentener, as plantas educam.

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