Piras

O que não nos contam sobre os sonhos

Teve uma época da minha vida em que entrei numa crise gigantesca por não ter um sonho. Eu não tinha uma direção, uma aspiração de vida. Eu só ia indo – e fui. Agora, com meus 31 anos, muito sábia – só que não – e vivendo à base de surtos, decidi contar o que ninguém tinha me contado até agora. TÃ-DÃÃÃÃ! *pausa dramática*

Um: não nos contam que os sonhos podem ser simples. Não precisam ser uma coisa magnânima tipo ser CEO de uma grande empresa aos 25 anos ou fazer uma viagem de volta ao mundo. Aliás, nem sei de onde veio essa história de que sonhos são essas coisas gigantescas que demandam trocentos anos de planejamento – aposto que é dos filmes de Hollywood. Porque, se a gente for pensar nos sonhos sonhados, esses de quando a gente dorme, eles nem sempre são esses super planos enormes – inclusive, a maioria sequer faz sentido. E os meus são basicamente de putaria. Pera, acho que precisamos de parênteses aqui: por que será que chamamos de sonho esses grandes planos/aspirações/desejos/metas de vida? Será que é por que no sonho sonhado a gente tem manifestações do nosso inconsciente dizendo o que realmente queremos? Ou será que fazemos um paralelo de mau gosto com a ideia de irrealidade do sonho sonhado com as nossas aspirações de vida? Tipo, chamamos de sonho justamente por ser difícil de realizar? Tá, divaguei.

Dois: não nos contam que nenhum sonho é melhor que o outro. Tá tudo bem em sonhar ser uma super profissional nômade que vive relações fugazes sem ter nenhum laço que a prenda a qualquer lugar. E tá tudo bem querer construir uma família a dois – sozinha – a três – quantos for e criar raízes, morar na mesma casa no subúrbio por 45 anos e se sentir realizada com o gramado verde, o cachorro correndo e a airfryer na cozinha. Enquanto for um sonho nosso, tá ok. O problema é quando é um sonho-embuste, e me dou a liberdade de fazer essa definição: sonho-embuste (s.m.) – ideal de vida incutido em função do contexto sócio-histórico, não se configurando um desejo verdadeiro, mas, sim, uma forma de legitimação social. Ex: constituir família porque se entende que é isso que uma mulher deve fazer; ser workaholic em função da romantização da produtividade. A recompensa desse sonho não vem na sua realização, mas, sim, no enaltecimento das outras pessoas por você ter realizado esse feito. A gente se sente bem, mas talvez não seja o que a gente queira. Então, na real, não se sente tão bem assim. Uó.

Três: não nos contam que os sonhos são mais gostosos – e possíveis – se compartilhados. Sabe aquela máxima de “não vou contar pra ninguém porque vai que dá errado”? Se pah não é bem por aí. Às vezes a gente só precisa de alguém que não olhe aquela vontade como inatingível apenas por ser sonho, e que coloque uma pitadinha de materialidade. O risco é, nesse encontro, reconfigurar o sonho, porque (quatro:) esquecem de dizer que os sonhos não são imutáveis. De boas a gente querer mudar de sonho por algo ou alguém porque agora as coisas têm novo sentido, ou porque mudamos, ou o contexto é outro ou tudo isso junto e misturado. Tenho uma impressão de que abandonar um sonho antigo é algo malvisto, mas minha interpretação é outra: o encontro que faz a gente se perder e trocar de rota talvez justamente esteja fazendo a gente se achar.

O que leva ao ponto cinco: não nos contam que às vezes os sonhos já estão sendo vividos – e foi aqui que eu parei pra rever toda a minha concepção de sonho. Ali, naquela cerveja pós expediente que na real significa morar no bairro que sempre quis, ter um emprego bacana, poder ir a pé pra casa e ter grana, saúde e disposição para ir naquele bar muito massa aproveitar a própria companhia. Está ali nos filhos chamando por você ao mesmo tempo e te deixando meio louca, mas lembrando da sua importância e reafirmando esse amor incondicional em meio a roupas sujas, machucados e vômitos de bebê. No inglês costumam dizer “I’m living the dream” pra esse momento, mas será que a gente tem discernimento pra perceber que realmente está vivendo o sonho?

Então, chamo o ponto seis: não nos contam que os sonhos não serão como imaginamos, mas serão melhores porque reais. E é isso.

*Esse texto foi inspirado pelo curta The Neighbors’ Window (Marshall Curry, 2019), selecionado pelo Pedro Cunha para o desafio de cinema do Página Dois! O curta venceu o Oscar 2020 na categoria Melhor Curta-metragem e está disponível no YouTube.

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