Piras

Da rua

Gosto da rua. Sempre gostei, era daquelas crianças que ficavam passeando por aí. Gosto de rolê na rua. Tá, na real eu gosto de rolê e ponto. Mas rolê de rua tem outro gosto: dançar olhando o céu, encontrar pessoas que estavam apenas de passagem, sentir o sol nos olhos junto com a vibe. A rua tem essa coisa do encontro, do acaso (algo que eu senti muita falta no isolamento). Saudades de correr o risco de se apaixonar ao virar uma esquina, sabe?

Ainda mais quando se vive em um musical, como eu. A regra é clara: saindo de casa, use sempre máscara, álcool gel e uma boa música que te faça dançar como se ninguém estivesse vendo. Suba nas muretas, faça aquele seu passinho clássico, dance na sinaleira, sorria (que seja com os olhos) para transeuntes, deixe a energia fluir e ignore os olhares julgadores. Engraçado que meio que existe um protocolo de como se portar na rua e pessoas felizes cantando parecem não fazer parte dele. Estou cheia de trabalho e preocupações com crises existenciais, políticas e sanitárias? Obviamente. Mas, em alguns dias, ainda consigo cantar.

E aí teve um dia em que uma senhora cantou junto. AHÃ. Estava ela passeando com seu catioro fofinho; eu seguia pela rua performando imunizada ao som de Cold cold man, da banda Saint Motel. Ela me olhou, se alegrou, deu uma mexida nas cadeiras e perguntou o que eu estava ouvindo. Tirei o fone, passei pra ela, ela entrou no ritmo na música e perguntou o nome. Eu disse, e ela: “ah sim, Coldplay! Eu conheço!”. Dei-me por satisfeita com essa resposta e seguimos. Eu, ainda dançando pensando sobre essa senhora com quem minha vibe bateu; ela, ainda com seu catioro, talvez pensando sobre essa menina empolgada que ela encontrou. Acasos.

Uma vez, no chão, encontrei um negativo de filme de câmera fotográfica. Para quem não é cringe como eu, essa coisa ficava dentro das câmeras analógicas e é nele que fica “estampada” a foto, algo tipo um esboço. Depois a gente mandava revelar num lugar específico e aí recebia a imagem impressa em papel fotográfico com o tamanho desejado e nas cores corretas. Pois bem, encontrei um negativo com fotos de uma viagem pra um lugar lindo, tinha mar e muita natureza. Havia um grupo de pessoas muito sorridentes, que na minha fic eram amigues que planejaram com muita empolgação aquela trip com barracas de acampar e até de barco andaram! Encontrei pessoas que nunca me encontraram. Fiz parte daquele momento ao melhor estilo Amélie Poulain. Coisas que a rua proporciona.

A rua fala. Fala pra muitos e pra poucos ao mesmo tempo. A rua ecoa o som de mil vozes juntas, mas também silencia algumas solitárias. Mas, inegavelmente, ela é lugar de encontro, às vezes de uma, de duas ou de várias pessoas; de alguém com a coisa; de coisa com coisa; de natureza com alguém. De tudo com tudo e com nada ao mesmo tempo. Rua de Schrödinger.

Pra encontrar, basta olhar. O acaso sempre vem. E numa dessas talvez você encontre uma pessoa dançando ou abraçando uma árvore ou olhando coisas esquecidas no chão ou admirando o céu ou apenas seguindo, de corpo presente e cabeça longe. A rua é democrática – e por isso gostamos tanto dela.

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