Música

50 anos do disco Construção do Chico Buarque

O quinto disco de Chico Buarque mostrou um lado mais feroz do compositor que, até então, era visto como um bom moço da MPB.

De volta do seu exílio na Itália, o músico decidiu soltar o verbo em um álbum que refletia o período sombrio onde o país se encontrava.

Pra enfrentar a ditadura militar, Chico montou o seu próprio exército. Na produção, o comandante Roberto Menescal; nos arranjos, o major Rogério Duprat (responsável pelos arranjos de cordas mais doidos do tropicalismo, a começar pelos discos dos Mutantes) e para acompanhar Chico nas composições, os soldados-poetas Vinicius de Moraes, Toquinho e Tom Jobim.

Tamo bem ou o quê?

Deus Lhe Pague abre o disco. É praticamente um rock, com um riff furioso no piano e uma letra cínica que agradece pela permissão concedida para fazer coisas básicas, como respirar e sorrir, enquanto se leva uma vida desgraçada. O arranjo de Duprat brilha aqui, com harmonias dissonantes que trazem o clima de desconforto que a faixa propõe. O clima de frustração segue na faixa seguinte, Cotidiano, onde vemos uma dona de casa que dedica a sua vida a agradar o marido dia após dia.

A faixa-título, com seus versos dodecassílabos terminados em proparoxítonas, é poesia pura. Ela conversa diretamente com a primeira faixa – é no mesmo tom e chega a citar vários versos de Deus Lhe Pague –, dando a entender que estamos reencontrando o mesmo personagem. Eu até ousaria dizer que a dona de casa de Cotidiano é a esposa desse trágico operário.

O animado Samba de Orly, composto com Toquinho e Vinicius, traz uma letra, na verdade, triste sobre a vida no exílio, num eterno aguardo de “uma notícia boa” que, de preferência, seja “o fim dessa temporada”. A faixa Minha História (Gesubambino) – que é uma versão de um hit italiano da época – também traz um instrumental pra cima acompanhando uma letra controversa sobre o filho de uma dançarina de cabaré com um marinheiro. O pai abandona a mãe, que decide dar à criança o nome de Menino Jesus. Pra ninar o filho, a mãe canta músicas de cabaré. A faixa é seguida por uma canção de ninar intitulada Acalanto, feita sob medida para o período da ditadura, onde Chico canta os penosos versos “dorme minha pequena, não vale a pena despertar”.

Até as músicas românticas do disco trazem um clima melancólico. É o caso de Olha Maria, composta com Tom Jobim, onde o protagonista convida a sua amada a lhe abandonar, pois ele só teria agonia a lhe oferecer. Em Desalento, vemos um amor desencontrado, que sofre para acontecer por uma dificuldade em aceitar o perdão.

É importante lembrar que Desalento foi lançada como primeiro single do álbum e trazia em seu lado B, o hino antifascista Apesar de Você, que já dava o tom político que o novo álbum traria.

Mas há músicas que trazem um tantinho de esperança em meio a tanta tristeza. E acredito que essas faixas sejam imprescindíveis na proposta do álbum. Valsinha nasceu como uma música de Vinicius de Moraes que convidou Chico Buarque a escrever a letra. Chico não fez feio na frente do poeta e construiu uma das letras mais lindas do mundo. Os versos cantados nos levam a acompanhar o reacender da chama de um casal (aparentemente de maior idade) que redescobre o amor daquela maneira sonora que todos os vizinhos ficam sabendo.

Pra terminar, eu não poderia deixar de falar de Cordão é uma das minhas músicas preferidas do Chico Buarque. Quase ninguém lembra dela. Eu, nunca esqueço. A letra é, pra mim, um resumo do papel do artista em períodos turbulentos e a maneira que todos. É um mantra necessário, que termina com Chico declarando: “Enquanto eu puder cantar, alguém vai ter que me ouvir”.

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