Piras

Mar revolto

Pensar sobre o processo criativo é algo que me fascina. Isso vai da arte visual, passando pela escrita e chega na nossa prática diária: planejar uma aula, resolver problemas, cozinhar… tudo exige criatividade e, às vezes, nem percebemos isso. Inclusive bato muito na tecla da criatividade no trabalho docente junto com questões de valorização profissional, mas isso é papo pra outra hora. Sou dessas que talvez não consiga imaginar um jantar super diferentão assim do nada, mas me diz o que tem na sua geladeira que a gente dá jeito nesse troço em quinze minutos.

No desafio de julho do P2, convidei o pessoal a pirar sobre alguns elementos que expus no formato de foto ou vídeo seguido de perguntas sobre o que (não) se via naquele registro. E aí começa minha pira sobre a pira (PIRACEPTION, OMG) porque, nesse processo, me peguei pensando sobre como eu penso sobre as coisas. O que me mobiliza? Que questões surgem quando olho algo? O que eu vejo? O que eu crio sobre aquilo? Então entendi que a minha mente é caótica rs Talvez todas sejam assim, não sei – e por isso estou contando sobre a minha. Mas, a cada segundo, sou atingida por trilhões de pensamentos sobre absolutamente qualquer coisa que aparecer na minha frente, desde uma parede descascando até a complexidade da existência. Isso não é bom nem ruim, não é virtude ou defeito; é característica. É um pouco cansativo, admito; mas é interessante.

É isso, minhas piras são sobre o que vejo. Isso parece totalmente óbvio agora falando em voz alta, mas eu nunca tinha visto dessa forma – e olha que escrevo aqui faz mó tempão. Eventos únicos me tiram do prumo e fazem meus olhinhos brilharem, tipo aquela vez que fui num show e escrevi três textos sobre isso. Bateu forte a coisa. Criar é sobre deixar o sentimento nos possuir e ver o que sai dessa emoção toda. É vômito. Mas a loucura é que o cotidiano é igualmente intrigante, curioso e cheio de nuances que falam muito sobre nós (e temos o Maturana viajando no cotidiano pra comprovar isso). Veja só o exemplo do caminhão de lixo.

A minha rua é bem movimentada e tem aquela coleta de contêiner, saca? Pois bem, todo dia, mais ou menos pelas 8h, o caminhão de lixo passa, faz três paradas na minha rua e entra na próxima quadra à direita pra seguir seu rumo. Eu assisto isso da minha janela da cozinha e é um clássico: o motor do caminhão, o freio, as engrenagens funcionando para erguer o contêiner, o barulho do lixo caindo… e as buzinas. Um barulho INCESSANTE de buzinas por causa do trânsito que se forma com o trancamento da rua pelo caminhão, afinal todo mundo sabe que socar a buzina é garantia de que o trânsito flui mais rápido. Um dia eu me prestei a cronometrar: a operação de limpeza de um contêiner durou 32 segundos. No total, menos de 2 minutos é o tempo que o caminhão fica na minha rua. Dois minutos. Aí fiquei viajando que mundo é esse em que dois fucking minutos são motivo para um caos generalizado por causa de atrasos e impaciência. Super podemos linkar com relações de trabalho, urbanização e o que mais a gente quiser.

Foi pensando nisso que, no desafio de julho, mandei o vídeo do caminhão para o Cassiano Rodka e ele escreveu um texto na perspectiva do pequeno Davi, para quem o encontro com o caminhão de lixo era o momento mais esperado do dia. BAM! Sem saber, a narrativa dele foi para o sentido completamente oposto do que eu tinha pensado, interpretando o cotidiano de outra forma, numa perspectiva mais lírica e imaginada, enaltecendo a criatividade de Davi. Sensacional. Criar fala muito sobre quem cria, nossas referências, nossos momentos.

E nessa doideira dos momentos, tenho que falar sobre o meu diário. Eu o comecei no ano passado e percebi que ele está meio abandonado nos últimos meses. Esse diário nasceu de um momento muito fudido da pandemia, em que eu tinha que fazer um esforço para enxergar coisas bonitas – e decidi que todos os dias eu registraria algo bacana pra lembrar que existe beleza no meio do caos. Não tenho sentido mais essa necessidade porque as coisas têm outro gosto agora (ahhh a paixão…), mas, depois dessa pausa nos registros, identifiquei uma dificuldade de colocar as coisas pra fora. Romper com o hábito diário da escrita criou entravas no meu processo criativo, deixou que o mar de pensamentos que me habitam ficasse revolto e eu não conseguisse olhar mais pra ideia alguma. É tudo absolutamente fugaz, nada fica pra eu trabalhar sobre aquilo com mais calma e atenção. Criar também é rotina, é esforço, é seleção.

Enfim, criar é paradoxo. Esse texto foi escrito justamente pela condição de não conseguir decidir sobre o que escrever. O processo fluiu em função da reflexão sobre a pausa no processo – e agora me pego pensando sobre tudo que pode mobilizar meu ímpeto criativo pela pausa e não pelo esforço. Afinal, sei tudo e nada sobre meu processo criativo; vejo tanto e coisa alguma no meio dos meus pensamentos. Acho que a pira mesmo é essa.

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