Piras

Fixidez

Eu adoro colar coisas na parede. Ilustras, fotos, plantas… principalmente recados. É uma forma de ocupar aqueles metros quadrados com algo que é meu. E, mesmo o que não foi criado por mim, se torna muito meu porque feito pra mim. Minhas colagens também são momentos, algo que fez sentido em algum dia e que achei relevante guardar. Por algum motivo, não estão em molduras e aí caem e se deterioram. Mas decidi mudar essa história.

Quase dois anos já no apartamento e finalmente fui numa dessa grandes lojas de departamentos comprar molduras. Cores, tamanhos e formatos variados, ótimo: sem dúvida alguma vai servir pras ilustras que levei. Sim, eu levei – minha capacidade imaginativa não vai tão longe pra acertar o tamanho do passe-partout ou se tal cor vai funcionar. Certamente fiquei mais de meia hora experimentando combinações, trocando os quadros de lugar, olhando de perto e de longe. Até que achei uma combinação interessante e soltei o fatídico: “eu não estou pronta pra isso”.

Essa loucura é totalmente do campo simbólico: entendi que, naquele momento, o emoldurar não significava o cuidado com o papel que eu imaginava; mas, sim, dar limites. A parede, que era toda uma grande tela, se transformaria em… parede. Seria tão somente o local onde coloco registros imagéticos que agora teriam fim determinado por quatro segmentos de madeira. Emoldurar era ter que colocar pregos, o que implicava em não poder trocar tudo de lugar a cada mudança de humor, estação, coração partido ou sei lá o quê. Era fixar. E, bom, não estava(ou) pronta pra isso.

Talvez as coisas caírem da parede não seja tão ruim assim. Talvez elas se deteriorarem seja apenas parte do processo e eu, afinal das contas, goste disso. Efemeridade como própria da essência, seja do que se é ou de onde se está. Seria essência, se tão mutável? Não sei. Mas sei que gosto da ideia de que chega um momento em que as coisas apenas não servem mais, e aí a gente muda. Assim será com essa casa, que um dia não vai mais me servir, tal como um exoesqueleto. E eu, bem lagosta, vou deixá-la pra trás, tirar com pressa o que resta na parede e ir pra próxima.


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”. 

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