Piras

Lembrança

Lembro perfeitamente quando li pela primeira vez. Eu estava dormindo durante uma festa de família –dormindo cedo nos rolê desde sempre, vê se pode – e estava acontecendo um alvoroço no pátio. Meu primo, um ano mais velho, estava em pé lendo um livro, enquanto adultos o enalteciam e sorriam de orgulho. Eu, leonina que sou, não suportei não estar nos holofotes: tirei o livro das mãos dele e li. Assim, escrotona mesmo.

A Brunna professora de hoje consegue olhar pra essa cena e dizer que não aprendeu a ler naquele momento, e que provavelmente a convivência quase diária com alguém em outro estágio de desenvolvimento teve influência maior do que o ciúmes. Mas o que marcou não foi o processo; mas, sim, o incômodo, o sentimento. Lembro também de como achei estúpida aquela história de dobrar o papel higiênico que minha colega da pré-escola me mostrou (acho que essa é a lembrança mais antiga). Não fazia sentido – e ainda não faz. Amassa, limpa e deu; tudo certo. Que frescura.

Lembro de perceber estar amando, tão bem quanto a dor do coração partido pela primeira vez (e pela segunda, terceira, quarta…). É engraçado que, apesar da lembrança ter essa conexão direta com o sentimento, tem coisas que me digo: “não esquece dessa merda que tu passou”. Acho que volta e meia o cérebro dá uma bugada e faz a gente esquecer do que foi difícil DEMAIS, porque viver com isso tão a flor da pele seria apenas too much. Já li algo parecido em relação ao parto: uma dor que, depois de algum tempo, se esquece; se não, as pessoas não teriam mais bebês – então, evolutivamente falando, esquecer garante a propagação da espécie. Faz sentido. Mas não deixa de ser curioso.

Afinal vivemos num (não) lugar entre passado, presente e futuro, equilibrando o bittersweet da lembrança de algo incrível que não teremos mais com o pânico daquilo que queríamos esquecer. E seguimos tentando entender quais as coisas temos que colocar um post it para marcar a página da nossa história e quais temos que deixar ir pelo ralo para podermos seguir em frente.

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