Piras

Transbordo

Esses dias eu fiquei extremamente irritada porque esqueci de tirar o lixo seco. Mas assim, sabe aquilo de ficar PUTA consigo mesma?? De pensar “Porra, Brunna, por que tu faz essas merdas, cara? Agora o lixo vai ficar ali mais dois dias”. Isso mesmo, dois dias. Eu vou recapitular a história como estratégia narrativa para dar ênfase: eu fiquei extremamente DE CARA comigo mesma porque, em virtude da minha absurda falha de caráter de não colocar o lixo seco no contêiner, ele ficaria mais dois-gigantes-e-intermináveis-dias na minha casa. Aí eu entendi que estava num limite.

Mas não sabia muito bem de quê. Já me acompanha há um tempo uma sensação de copo cheio. Não cabia mais nada na minha cabeça, nos meus pensamentos, na minha vida. Eu lia e não assimilava nada, parecia que não era mais capaz de aprender (o que, vindo de uma professora, fica ainda mais ridículo e nonsense). Eu comia e tudo parecia demais – quente demais, frio demais, gorduroso demais, frio demais, comida demais. Toda e qualquer pessoa que chegava pra me contar algo era entendia como demanda, e eu não tinha condições – não, NÃO TINHA – para ouvir mais nada. Até o que me dava prazer parecia obrigação, e coitadas das plantas que morreram no processo. Não cabia mais nada nem ninguém.

Fui acometida de uma vontade gigantesca de fugir, de me esconder de todos os ~tenho quê~ que apareciam. A sensação – ou esperança – era que ir para um mato sem ninguém, sem contato algum e sem explicações faria os pensamentos saírem pelo ouvido e a pressão intracardiochakrascraniana diminuir. Faltava espaço para eu existir em mim.

Mas o alívio veio no modo de um tantrum, essa incrível palavra do inglês pra falar daqueles ataques de birra que as crianças têm desses de se jogar no chão e chorar esperneando, saca? Talvez eu tenha assustado ligeiramente minha terapeuta, mas foi aí que consegui gritar o que me sufocava, abrir espaço e me escutar.

Dispensei tudo e todos, e marquei um horário para conversar com ela, a pessoa mais importante da minha vida: eu mesma. E, enfim, sentimos, pensamos e escrevemos. Transbordei.

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