Piras

Estapear ou não estapear, eis a questão

Faz parte do mal-estar da pós-modernidade essa necessidade (ou até mesmo cobrança) de darmos nossa opinião sobre absolutamente tudo que acontece. Acho isso um saco, mas bem contraditória que sou venho aqui falar sobre o causo do momento: o tapão de Will Smith.

Pra quem perdeu o babado da cerimônia de entrega do Oscar, o humorista Chris Rock estava no palco apresentando uma parte do evento e fez uma piada com o cabelo raspado de Jada Pinkett Smith, apresentadora, atriz, cantora e também esposa do Will. A questã é que Jada sofre de uma doença chamada alopecia que causa a queda de cabelo, o que a fez obviamente ficar desconfortável com o comentário de Chris Rock e resultou num Will Smith subindo ao palco e dando um bofetão na cara do comediante.

Surgiram trocentas questões a partir daí que, inclusive, revivem uma treta antiga da família Smith com o Chris Rock (e me parece que o Rock tem treta com todo mundo com suas ~piadas~ bem questionáveis). Muitas opiniões vieram sobre a validade do tapa ou não (visto que Will estava rindo logo antes do tapão), quais são os limites do humor, quem na academia revisou o texto do Chris Rock, se violência seria a melhor opção, se Jada deveria ter se defendido sozinha e até mesmo o mapa astral do Will Smith rolou por aí, alegando que o senso se justiça dele vem do lado libriano (sei como é, vide meu ascendente em libra – risos). Acho que a gente super poderia pirar no que é violência (será que é só agressão mesmo?), mas esse rolo reviveu uma história que aconteceu comigo.

Há uns anos eu estava com o companheiro da época no transporte público e um senhor ficou encarando as minhas belas pernas exibidas pela curtíssima saia que eu usava. Eu estava de costas e não tinha visto. Quando saímos do metrô, meu companheiro começou a xingar o senhor dizendo que aquilo era desrespeitoso e tudo mais. Naquela situação, eu disse que achava massa ele se posicionar sobre, mas que a forma como aconteceu me colocou numa posição de objeto sendo cobiçado, e não como pessoa que tem uma voz para se posicionar. Orientei que eu preferia que, quando acontecesse novamente (porque sim, aconteceria), ele me avisasse do que estava ocorrendo e ficasse ao meu lado para que EU dissesse pra pessoa que aquilo não era legal. Expliquei que muitas mulheres assediadas não se manifestam por medo de sofrerem retaliações e que ele estar ao meu lado me dando apoio na minha manifestação era o ideal pra mim.

Pra mim. Eu, Brunna. Isso não é uma receita e, mesmo que fosse, dependeria muito do contexto: será que havia outra forma de reagir? Naquele contexto, o que essa reação implicaria? Quem são as pessoas envolvidas? A minha história e a treta do Oscar são situações completamente diferentes em função da natureza da ação (uma “piada” e assédio), mas principalmente pelas pessoas envolvidas e importância da reação. A @pretararaoficial trouxe em post no insta como as mulheres pretas são ridicularizadas até mesmo por seus companheiros e enfatizou a importância do posicionamento de Will Smith no Oscar – taí um ponto que a gente tem que olhar. Fecho com a @gabidepretas, que diz que o ideal seria que o Will segurasse o Chris Rock pra Jada bater rs. Não precisava nem isso, mas só ele estar ali do lado dela simbolizando o apoio, o “ahã, é isso aí, amor”, sabe? Mas por quê? Porque eu tenho a certeza absoluta e inquestionável que se ela fosse sozinha socar a cara do humorista diriam que ela é louca e não sabe brincar, que ela é barraqueira – afinal, é esse o rótulo que serve a mulher negra.

Em toda a discussão que eu entro sobre aborto encontro homens falando que o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser: lindo, é uma grande pauta feminista. Mas nesse discurso velado está o ESSE É TEU B.O., FILHA, que faz com que o cara simplesmente suma e deixe a mulher tendo que lidar com o peso físico, psicológico e financeiro dessa decisão. Eu também vejo muitos homens dizendo como as lutas feministas são importantes e que devem respeitar o lugar de fala das mulheres, bacana. Mas é com essa justificativa que esses mesmos homens não mexem uma palha para se manifestar e usar da sua posição de privilégio numa sociedade machista e patriarcal para fazer algo. E eu não estou dizendo aqui pro cara subir num palanque, mas, sim, pra ele dizer pro parça amigo dele que aquela atitude com a mina é palha; pra na reunião da empresa ele dizer pro chefe que faltam mulheres em cargos de decisão; pra ele repensar as suas ações diárias e entender que isso faz parte de questionar um sistema que naturaliza a opressão das mulheres. Uma vez vi relatos das ações do 8 de março no Chile (que são gigaaaantes) em que os homens distribuíam água para as manifestantes e auxiliavam com cuidados médicos e enfrentamento com a polícia. É sobre isso.

Em resumo, achei emblemático o Will Smith levantar a bunda da cadeira e fazer algo. Talvez não tenha sido a melhor reação, talvez tenha sido a única possível no contexto: sei lá, isso é assunto pra outra problematização. Mas é importante sempre lembrar que fazer nada é se posicionar, e ficar no “isso é luta das mulheres” é extremamente cômodo, pra não dizer mau caráter. Como se posicionar? Não sei. Depende. E nesse processo nós vamos errar, mas faz parte. Espero que o Oscar 2022 seja lembrado como a noite em que um homem negro, a comunidade surda e mulheres receberam premiações: foi foda! Mas que também seja um lembrete de que justiça social e respeito exigem posicionamento e, às vezes, se conquistam à tapa.

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