Quadrinhos

Neal Adams (1941 – 2022)

                Neal Adams nasceu em 1941 em Nova Iorque, EUA.  Começou a trabalhar com quadrinhos ainda na década de 1950 e já nos anos 1960 fazia trabalhos menos destacados e fillers na DC. Em 1969 começou a trabalhar na Marvel, desenhando os X-Men. Seu trabalho no título dos mutantes teve uma liberdade criativa muito grande, já que a revista estava para ser cancelada e o então editor Stan Lee deixou as rédeas muito soltas. Adams participou, junto com o roteirista Roy Thomas, da criação de personagens importantes como Destrutor, Polaris, Sauron e Banshee. Os visuais dos personagens principais foram revitalizados e podemos dizer que Adams criou os uniformes que são base da maioria dos looks dos X-Men até hoje. O visual arrojado e minimalista em preto e branco do uniforme do Destrutor, por exemplo, sofreu pouquíssimas alterações até hoje. O celebradíssimo trabalho de Chris Claremont e John Byrne nos X-Men só pode acontecer por usar como base os X-Men de Roy Thomas e Neal Adams. A dupla também trabalhou em uma fase importante dos Vingadores, que incluiu a Guerra Kree-Skrull.

O trabalho de Adams (aqui em X-Men) é marcado pelo dinamismo e pelas quebras da diagramação de página

                Enquanto estava na Marvel Adams nunca deixou de trabalhar também pela DC. Em 1970 assume a revista do Batman junto com o escritor Dennis O´Neil, com quem vai formar uma parceria histórica. A dupla foi responsável por revitalizar o Cruzado Encapuzado, cujas histórias tinham o tom camp do seriado dos anos 1960. Neal Adams reestabeleceu um tom mais sombrio e noturno ao Batman e é um considerado um dos desenhistas definitivos do personagem. Com O´Neil foi responsável pela origem de personagens como Ra´s al Ghul, a Liga dos Assassinos e o Morcego Humano. O Batman de O´Neil e Adams consolida o personagem como “o Detetive”, um enxadrista que tem como maior equipamento não o cinto de utilidades, mas sim o cérebro.

O visual do Batman de Neal Adams é, para muitos, o definitivo do personagem.

                A parceria com O´Neil vai se tornar lendária quando ambos assumem o título “Lanterna Verde/Arqueiro Verde”. O próprio Adams já havia revitalizado o Arqueiro, sendo o responsável pela criação do hoje icônico cavanhaque de Oliver Queen. A série do Lanterna e do Arqueiro durou dois anos e retrata uma imersão de ambos pelo interior dos EUA, tomando contato com problemas sociais reais como a miséria, o racismo e o alcoolismo. A histórica capa em que Roy Harper, o ajudante-mirim do Arqueiro Verde, é mostrado como um viciado em heroína é uma das mais importantes da década de 1970 pela DC. A abordagem de O´Neil e Adams nesse título é diretamente responsável por muito do amadurecimento que os quadrinhos da DC se permitiram nos anos 80. Se o Cavaleiro das Trevas e a Vertigo foram possíveis, foi por conta da abordagem mais madura e bastante política deles nesse título. O próprio Adams contou em bate-papo na CCXP, em 2019, que a publicação da capa e da história geraram uma grade briga com o editor Julius Schwartz.

“Você ajudou um planeta com seres de pele laranja. Já escutei também sobre seus feitos ajudando seres de pele roxa. Por que você nunca se preocupou com os de pele preta? Responda, Sr Lanterna Verde!”

                O ativismo político, aliás, foi marca da carreira de Adams nas páginas dos quadrinhos e fora delas. O desenhista contava que a criação da qual mais se orgulhava era o Lanterna Verde John Stewart. Fugindo dos estereótipos da época para personagens negros, Stewart não era um presidiário ou oriundo de um bairro barra-pesada marcado pela pobreza. O personagem é um arquiteto, com nível superior, emprego e estabilidade. Só a existência de John Stewart já era afrontosa, na década de 70. Nos anos 90/00 ele acabaria se tornando o Lanterna Verde mais conhecido e popular, muito em função da animação Liga da Justiça Sem Limites.

John Stewart: negro, ex-fuzileiro e arquiteto, o Lanterna Verde que não usa máscara porque não tem nada a esconder

                A militância política de Adams pelos direitos dos artistas foi bastante marcante. O próprio fato de trabalhar na Marvel e na DC ao mesmo tempo, o que não era tão comum na época, era encarado por ele como uma sinalização para outros criadores de que poderiam fazer o mesmo. Adams militou por melhores pagamentos e pela revisão da questão dos royalties e direitos autorais de desenhistas e roteiristas. Foi um dos responsáveis pela mudança da política das grandes editoras, que retinham as artes originais dos quadrinhos. Essas obras passaram a pertencer aos artistas e se tornaram, inclusive, importante fonte de renda para eles. Também foi Adams uma das lideranças do movimento de artistas que participou do resgate de Jerry Siegel e Joe Shuster do ostracismo. No final dos anos 1970, às vésperas da estreia de “Superman: O Filme”, os criadores do personagem sequer eram creditados pela DC. O reconhecimento de Jerry Robinson como co-criador do Batman também foi resultado de manifestações de Adams

O jovem Neal Adams com Jerry Siegel, Joe Shuster e Jerry Robinson, criadores que ele ajudou a resgatar

                Se a militância política era uma característica pessoal de Neal Adams, sua arte também foi marcante e revolucionária. O  artista pode ser considerado quase que uma ponte: ele inicia a transição do estilo mais clássico de artistas como Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita (sênior), Bill Everett e Carmine Infantino para um desenho mais fluido e cujos movimentos remetem mais ao cinema. Não por acaso alguns dos artistas mais importantes dos anos 1980, como John Byrne, Frank Miller e Bill Sinkievich vão sempre se referir a Neal Adams como sua referência número um. A homenagem de Jim Lee, um dos mais importantes artistas dos anos 90/00, a Neal Adams nos ajuda a entender a dimensão da importância do seu trabalho. Adams trabalhava com toda a página, usando a quebra da diagramação para auxiliar na noção de movimento. Além disso, Adams dominava a anatomia humana como poucos, tendo ficado conhecido por desenhar em primeiro plano mãos e dedos, o que em geral deixa os desenhistas em pânico.

Neal Adams gostava de brincar com as capas, colocando os personagens interagindo/tocando o título da revista.
O estilo dinâmico e movimentado de Neal Adams influenciou toda uma geração de desenhistas.
Já em X-Men as páginas de Adams traziam a noção de movimento que o consagraria (e as mãos e dedos em primeiro plano)

 

               Neal Adams faleceu na quinta-feira, dia 28 de abril de 2022. Deixou a esposa Marilyn, com quem foi casado por mais de 45 anos, e os filhos Jason, Joel e Josh, além da filha Zeea, de um casamento anterior. O mundo dos quadrinhos está de luto, mas ao mesmo tempo celebra a fantástica carreira e o legado de um dos grandes. A declaração emocionada de Jim Lee descreve o que todos nós estamos sentindo. Ao contrário do que estão dizendo, Neal Adams não faleceu: estará para sempre vivo nas páginas brilhantes dos herois que ele ajudou a eternizar.

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