Somos todas Simones (?)

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“I tell you what freedom is to me: no fear”.

(Nina Simone – pianista, cantora, compositora e ativista política nos Estados Unidos nos anos 1960)

 

Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher: torna-se. Peço licença à mestra maior do feminismo para respeitosamente dela discordar, em termos. Nascemos mulheres sim, Simone. E com o nascimento, começamos imediatamente a carregar uma série de porcarias cor-de-rosa conosco, a corzinha “de menina”. E a ouvir outras tantas besteiras que nos subestimam e fragilizam, como “princesa” e “sexo frágil”. E então passamos a ter que ouvir idiotices como a que acabo de ouvir do cara na mesa ao meu lado no café, dirigindo-se a um amigo, “Cara, o problema é que as mulheres em geral não entendem nosso espírito empreendedor…”. Se eu tivesse um chilique toda vez que ouvisse “mulheres em geral”, já estaria internada num hospital psiquiátrico há muuuito tempo…!

E então me pergunto, “Como é que é, querido? Ah, só vocês sabem empreender, né? Coisa fofa…!”. Vocês, os poderosos. Sabem qual a verdade, leitores? Os caras “em geral” estão apavorados. Sim, é isso mesmo. Estão zonzos e cambaleantes, em razão do nocaute gigantesco que o novo feminismo deu neles. Uma sábia parte deles juntou-se a nós, e vestiu a camiseta com fervor, batendo no peito e deixando bem claro que não sairão do nosso lado. Esses são umas coisinhas queridas do nosso coração…! Há aqueles que acham “legal”, desde que não seja muito “radical” (traduza-se: “pode ser feminista, mas me faz o favor de estar sempre de unhas feitas e depilada, tá?”). E então há o grupo revoltado, aqueles que amam o passado e não veem que o novo sempre vem (tal qual na música “Como nossos pais”, da grande Elis Regina), e que não se conformam que possamos (que estranho!) trabalhar como eles, ter equiparação salarial a eles, estudar como eles, sair sem dar satisfações a ninguém (como eles fazem), falar palavrão, tomar cerveja no gargalo e fazer sexo sem compromisso. Eu tenho a sorte de não ter nenhum homem do último tipo no meu círculo social, mas os do meio termo tenho alguns… Oh, Gosh.

Isso está mudando, porém. Ufa, né? Mais do que hora de a nova geração de meninas – e meninos! – acabar com esta palhaçada toda. Eu li recentemente os dois livros-manifesto geniais da Chimamanda Adichie, uma escritora nigeriana mega inteligente e poderosa (não, não vou usar o termo “empoderada”, porque acho pouco para tudo que estamos conquistando ultimamente). Chimamanda dá um tapão de luva de boxe na sociedade mundial: criada no ambiente super machista da Nigéria, a moça lutou muito para encontrar seu lugar ao sol nesta imensa praia povoada por meninos mimados e mandões. Minha filha Angelina, de 11 anos, também leu, adorou, e discutimos sobre as obras de igual para igual, de menina para menina, de companheira para companheira. Quando ouço minha filha, aquela coisinha magrela de olhos vivos cor de amêndoa, dizendo coisas fantásticas sobre ser mulher com muito mais propriedade e maturidade que várias meninas por aí que – sim, também, por incrível que pareça – contribuem para a manutenção do machismo, penso, “Que baita trabalho estou fazendo como mãe!”. Aplausos, minha Dear Prudence: o mundo é definitivamente teu e da gurizada da tua geração, porque se todos (ou pelo menos uma boa parte deles) puderem articular ideias como tu, o novo futuro das mulheres está mais que garantido.

E não posso esquecer de falar aqui sobre a Laís Bodansky, essa mulher sensacional e única que escreveu e dirigiu “Como nossos pais”, filme lindo e tocante estrelado magnificamente pela Maria Ribeiro e pela Clarisse Abujamra, e que arrebatou vários Kikitos no último Festival de Cinema de Gramado, e também alguns prêmios internacionais. O filme é muito denso, e ao mesmo tempo tão delicado. É uma ode ao feminino, ao amor, à transgressão e à coragem da mulher de comprometer-se primeiramente consigo mesma para buscar a felicidade – se não completa, pelo menos profunda, mesmo que momentânea. Um brinde às Chimamandas, às Laíses, às Marias, às Clarisses e às Angelinas do mundo, que desbravam a própria essência, para em seguida poder desbravar o mundo. O universo. Por que não?

Nota final: pedi à Angelina que lesse esta crônica quando a concluí. Ela gostou muito e discutimos as questões aqui abordadas, mas ela teve um adendo a fazer. Disse-me que acha que ainda não será a sua geração a dar a grande guinada na mudança definitiva do pensamento machista, porque ainda vê muitos amiguinhos e amiguinhas se comportando de maneira machista, uma herança lamentável de seus pais, da minha geração. Angelina pensa que os bebês que estão nascendo agora, esses sim, serão os grandes responsáveis por uma maior mudança de comportamentos, pois estão vindo ao mundo justo nesta época onde as alterações estão ainda surgindo e se consolidando, e meninas como minha filha estão a abrir caminho! Bravo!

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