Música

Encontrando união em um mundo dividido: o novo disco do Therapy?

Therapy-Cleave

Em seu 15º álbum de estúdio, os irlandeses do Therapy? apostaram suas fichas naquilo que eles fazem melhor: canções curtas com bons riffs e refrões memoráveis. Cleave é um disco que te diz que tu tem todo direito de estar puto da cara com o mundo e que é preciso unir forças para lutar e provocar mudanças.

Ao sentarem para compor o novo álbum, os músicos do Therapy? decidiram que era necessário abordar o estado das relações humanas (ou a falta delas) na sociedade contemporânea. Para passar a sua mensagem claramente, decidiram gravar canções bem diretas ao ponto, tanto musicalmente quanto naquilo que eles precisavam desabafar. O resultado são os 33 energéticos minutos de Cleave.

As faixas são curtas e agressivas, mas com aquele senso de melodia que a banda domina como poucas. As letras apontam o dedo na cara dos problemas mundiais, confidenciando ao ouvinte que ele não está só em sua frustração. O refrão de Kakistocracy tenta confortar ao declarar com simplicidade: “It’s OK not to be OK”. A faixa fala sobre a decadência dos EUA, mas poderia ser aplicada perfeitamente a vários outros países, incluindo o Brasil. O título do álbum em si já é uma reflexão em relação às polaridades que estamos vivendo: “cleave” é uma palavra que poderia ser traduzida como “divisa”, sendo tanto um local que separa como um espaço que une.

O primeiro single, Callow, é um clássico instantâneo. A música se alia rapidamente aos melhores momentos do cancioneiro da banda, já se posicionando à vontade ao lado de hits como Nowhere, Screamager e Opal Mantra. A letra aborda os perigos do uso exagerado de medicação, especialmente antidepressivos, que podem fazer as pessoas ficarem completamente apáticas. Para o refrão, Andy Cairns pegou uma frase dita pelo ator Stephen Fry em relação ao seu período usando remédios contra a depressão: “If you take my demons, you’ll take my angels too” (Se você eliminar meus demônios, vai acabar eliminando meus anjos também).

Outro refrão que pega emprestado uma frase célebre é o da música Success? Success Is Survival. Perguntado certa vez sobre o que sucesso significava para ele, o cantor Leonard Cohen respondeu que “sucesso é sobreviver”. Foi a deixa perfeita para Andy escrever uma letra sobre como a sobrevivência se tornou algo mais difícil do que nunca nos dias de hoje. Expelled é uma das mais estranhinhas, pegando uma sequência de acordes emprestada de Radio Friendly Unit Shifter do Nirvana e unindo a um riff de baixo debochado, vocais megafônicos e uma bela sentada de bateria do grande Neil Cooper – que, aliás, não deixa nada em pé neste disco.

Para produzir o álbum, a banda chamou novamente Chris Sheldon, que foi responsável pelo grande clássico do grupo, Troublegum. A adição de Sheldon certamente colaborou para a conexão da sonoridade das novas músicas com o som primordial do trio. Faixas como Crutch (sobre alcoolismo), I Stand Alone (sobre solidão) e Wreck It Like Beckett (sobre chutar o balde e recomeçar) remetem aos clássicos da banda, mas sem serem puramente nostálgicos.

Dumbdown foi composta pelo baterista Neil Cooper utilizando sintetizadores e, segundo o vocalista, soava como Daft Punk em sua demo. Nas mãos do baixista Michael McKeegan e do guitarrista Andy Cairns, ela ganhou as cores do Therapy?, mas permaneceu uma faixa peculiar, com guitarras percussivas e vocais rapeados. Outra que traz um pouco do pezinho da banda na música eletrônica é Save Me from the Ordinary, que remete um pouco às faixas de Never Apologise Never Explain.

O disco fecha com a bela No Sunshine, descrita pelo vocalista como um trip hop mesclado com black metal. Nela, Andy fala um pouco sobre a sua própria depressão, usando-a como exemplo do sentimento geral da sociedade em que vivemos. Cleave é um reflexo da falta de esperança com a qual encaramos o mundo atualmente. Mas, assim como o seu título ambíguo, ele tenta nos mostrar que, enquanto pudermos encontrar pessoas no mesmo barco que a gente, podemos seguir remando.

Therapy-Cleave-Promo

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