Cinema

Oscar 2020: E não é que eles fizeram isso mesmo???

parasite-crew
O elenco e o diretor de “Parasita” festejam suas quatro vitórias na noite.

                O Oscar é uma festa de celebração e divulgação da indústria cinematográfica norte-americana. Ele surgiu com essa concepção e nunca deixou de ser isso. Nos EUA, os prêmios técnicos são os das guildas/sindicatos: SAG, DGA, PGA, Critics Choice. Em termos artísticos, festivais europeus como Veneza, Cannes e Berlim (e até o norte-americano Sundance) são mais considerados. Ainda assim, todo ano nós participamos do circo. Assistimos os filmes, opinamos, torcemos, criticamos e admiramos os vestidos, nos emocionamos com os discursos, rimos das gafes, reclamamos das injustiças.

9386295
Brie Larson (Capitã Marvel) e Gal Gadot (Mulher-Maravilha) homenageiam uma das primeiras heroínas bad ass do cinema, Sigourney Weaver (Tenente Ripley).

                A noite de ontem, no entanto, foi um tanto diferente. A Academia tem sido constantemente criticada pela falta de representatividade. Mais uma vez, não tivemos mulheres, nem pessoas negras na categoria de direção. E, novamente, a única pessoa negra nas categorias de atuação, entre vinte indicados, era uma mulher fazendo o papel de escrava. Mas, sejamos justos, a Academia tem lutado contra isso. Se faltou representatividade entre os indicados (e as mudanças aí tendem a ser mais lentas porque dependem dos votos de toda a Academia), dentre os apresentadores e shows, onde a diretoria da Academia tem ingerência, houve uma festa bem plural. A condução da cerimônia sem um host fixo funcionou, apesar de ter sido confusa algumas vezes. Houve momentos em que alguém introduziu alguém que introduziu alguém e, em outros instantes, apresentadores falaram sem ser introduzidos. O número de abertura ficou com a talentosíssima Janelle Monáe, que referenciou alguns filmes da temporada, como “Um Lindo Dia na Vizinhança” (A Beautiful Day in the Neighborhood, Marielle Haller) e os esnobados pela premiação “Nós” (Us, Jordan Peele) e “Midsommar” (Midsommar, Ari Aster). Aliás, a Academia, em algum momento, tem que parar de esnobar as EXCELENTES produções de terror que andam aparecendo.

natalieportman-cape-2
A sempre elegante e ativista Natalie Portman usou uma capa com nomes de mulheres esnobadas pelo Oscar de Melhor Direção, como Greta Gerwig e Lulu Wong.

                Os números musicais foram extremamente genéricos, inclusive o de Elton John, que venceu a categoria Melhor Canção. Dentre os concorrentes, quem mostrou mais força na música foi Cynthia Erivo, cantando “Stand Up”, tema de “Harriet”. O In Memoriam teve Billie Eilish com uma versão meio meh de Yesterday. O mais interessante da noite, em termos musicais, foi um clipe-homenagem a trilhas clássicas de filmes. E o que ninguém entendeu foi, no final dessa homenagem, aparecer um desnecessário Eminem no palco para cantar “Lose Yorself”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção… em 2003. A explicação foi que, na época, o cantor não pôde se apresentar por causa do excesso de palavrões na música, e que se estaria fazendo justiça. Mas não houve essa explicação na hora e todo mundo ficou com cara de ????.

24529836-0-image-a-44_1581303436719
Scorsese aproveitou a apresentação do Eminem para fechar longamente os olhos…

                Nas categorias de atuação, como vem ocorrendo nos últimos anos, não houve espaço para surpresas. Brad Pitt enfim levou seu Oscar (por Ator Coadjuvante em “Era Uma Vez… Em Hollywood”) e Laura Dern (Atriz Coadjuvante em “História de um Casamento”) emocionou a todos com seu discurso fazendo referência aos pais, Bruce Dern e Diane Ladd. Joaquim Phoenix (Melhor Ator por “Coringa”) fez um discurso um pouco confuso e longo onde referenciou o falecido irmão River, falou da cultura do cancelamento e de veganismo. Renée Zellweger fechou a conta (ela ganhou TODOS os prêmios da temporada por sua Judy Garland em “Judy”) e fez um discurso que ninguém entendeu direito (o que, no caso dela, não é novidade).

1qbfyjllm75uchnc_vevc_g402x
Renée Zellweger, Joaquin Phoenix, Laura Dern e Brad Pitt confirmaram seus favoritismos.

                Na medida em que a cerimônia se aproximava do final, algumas confirmações: “O Irlandês”, apesar das suas dez indicações, voltou para casa com as mãos abanando. “1917”, de Sam Mendes, confirmou o prêmio de Melhor Fotografia que todos esperavam e levou também Mixagem de Som e Efeitos Especiais, conforme o previsto de brilhar nas categorias técnicas. Esperava-se, a partir daí, um passeio de “1917” e Sam Mendes até o final da noite. Quando “Ford vs Ferrari” levou Montagem, uma centelha de dúvida apareceu em todos. Tradicionalmente, Montagem e Melhor Filme casam na cerimônia. Como “Ford vs Ferrari” não levaria Melhor Filme, a dúvida apareceu… será que eles vão MESMO fazer isso?

1205156185.jpg.0
Taika Waititi, que é 1/2 maori: “Esse é para todas as crianças indígenas do mundo que querem fazer arte, dançar e escrever histórias. Nós somos os contadores de história originais e podemos fazer isso aqui também!”

                “Jojo Rabbit” deu o prêmio de Roteiro Adaptado para Taika Waititi (que fez um discurso bonito) e em seguida “Parasita” levou Roteiro Original. Nesse momento, as sobrancelhas se ergueram: Será? Que “Parasita” levaria Filme Estrangeiro, todo mundo já sabia. Mas também todos esperavam (e lamentavam) que esse seria o único prêmio dos sul-coreanos na noite. O próprio Bong Joon-Ho, depois de ganhar o prêmio de Roteiro Original, brincou que já estava bom para a noite e que iria relaxar e beber. Mas a bebida do diretor deve ter esquentado…

960x0
Bong Joon-Ho recebeu o prêmio de Melhor Direção de Spike Lee, cujo terno homenageava Kobe Bryant.

                Quando ele foi anunciado como “Melhor Diretor”, todo mundo se emocionou. Inclusive o próprio. O discurso foi maravilhoso e incluiu uma homenagem a Martin Scorsese, que foi aplaudido de pé pelo teatro. O coreano também agradeceu a Quentin Tarantino, que se declara fã de Bong há mais de dez anos e colocou dois filmes do diretor na sua lista de preferidos de todos os tempos (Tarantino é um dos maiores entusiastas e conhecedores do cinema produzido fora de Hollywood). Quando Jane Fonda subiu no palco com seu “casaco de ser presa” para apresentar a última estatueta da noite, “Melhor Filme”, havia uma torcida no ar: parecia que TODOS queriam que “Parasita” vencesse. E deu certo. Pela primeira vez, em 92 anos, a Academia premiou um filme não falado em inglês. A repercussão, até agora, é unânime. Todo mundo batendo palmas para a Academia pela escolha (com exceção, é claro, dos rednecks furiosos com esses amarelos que sequer fazem seus discursos de agradecimento em inglês).

92nd Annual Academy Awards - Show
“Quando eu era um jovem estudante de cinema, havia um ditado que eu gravei fundo no meu coração: ‘quanto mais pessoal, mais criativo’. Essa citação é do nosso grande Martin Scorsese. Na faculdade, estudei os filmes do Scorsese. Só ser indicado com ele já era uma enorme honra. Nunca pensei que pudesse ganhar. Quando ninguém aqui nos EUA conhecia meus filmes, Quentin sempre os colocava em suas listas. Ele está aqui. Muito obrigado, Quentin, eu te amo! Se a Academia permitisse, eu faria um Massacre da Serra Elétrica e dividia essa estatueta em cinco partes e compartilhava com todos vocês. Vou beber até amanhecer.” O discurso de Bong Joon-Ho certamente nos representa.

                A cerimônia se encerrou, quase 2h da manhã para nós, com aquele gostinho de que valeu a pena esperar. Que a Academia siga nesse caminho e que continue prestando atenção nas suas falhas e faltas, tentando sempre melhorar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: