Quadrinhos

Feliz Aniversário, Grant Morrison!!

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No último mês de fevereiro o quadrinista escocês Grant Morrison completou 60 anos de loucura e psicodelia. O escocês careca que divide opiniões e continua produzindo num volume muito grande tem um monte de material sendo (re)publicado no Brasil e eu resolvi listar cinco trabalhos bacanas do Morrison para conhecer melhor o autor. São os cinco melhores? Acho difícil classificar dessa forma, mas são cinco obras que tem a marca de Grant Morrison, sem uma ordem específica.

1) Homem-Animal

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                No início dos anos 80 a DC através de Karen Berger (Que se tornaria a cabeça por trás do selo Vertigo) foi até o Reino Unido prospectar entre os jovens talentos da então pujante cena dos quadrinhos britânicos. Alguns autores foram contratados e receberam títulos de terceira linha da DC como uma espécie de “teste”. Se não vendesse, tudo bem, não era nada que afetaria a editora. Nesse modelo, Alan Moore escreveu seu “Monstro do Pântano” e Neil Gaiman reinventou o “Sandman”. Grant Morrison escolheu Buddy Baker, o Homem-Animal. Um herói sem identidade secreta, casado e com dois filhos. Morrison usou e abusou da metalinguagem no seu primeiro arco de histórias, “O Evangelho Segundo o Coiote”, onde um coiote antropomorfizado rebela-se contra seu Criador (Deus/O Artista) pela eterna perseguição na qual ele está fadado a fracassar. Sim, a referência é essa mesma que vocês pensou. No segundo arco “A Origem das Espécies”, o Homem-Animal milita pela… causa animal. Tráfico de animais, vegetarianismo e outros temas relacionados estão presentes. Outros heróis com poderes “animais”, como Vixen e Delfim, também aparecem aqui. O arco também conta a origem dos poderes do Homem-Animal, relacionando-a com os misteriosos Alienígenas Amarelos. O terceiro arco, “Deus Ex Machina”, que encerra a passagem de Morrison pelo título, é uma pequena obra-prima recheada de metalinguagem e quebra da quarta parede, com direito ao Homem-Animal encarando o leitor e falando diretamente com ele. Depressão, abuso de drogas, inconformidade e tragédias pessoas estão presentes e compartilhar a jornada de Buddy Baker nos faz admirar a tremenda humanidade imprimida por Morrison no personagem.

2) Os Novos X-Men

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                Depoi da saída de Chris Claremont, que foi o roteirista-chefe dos X-Men durante muito tempo, a revista perdeu o rumo. Paralelamente a isso, de carona no sucesso da animação, os mutantes da Marvel se tornaram personagens extremamente populares, o que deixou a casa das ideias com um problemão: o que fazer com personagens amados pelo público mas maltratados por dez anos de roteiros de quadrinhos? A Marvel entregou o título principal dos mutantes para Morrison, relançando-o como “Novos X-Men”. O escocês contou aqui com a parceria de seu desenuista de confiança, Frank Quitely, e recebeu carta branca. Os primeiros dois arcos de Morrison, “E de Extinção” e “Rebelião no Instituto Xavier” foram o que de melhor foi escrito sobre os Mutantes em muito, mas muito tempo. Infelizmente Quitely não deu conta de entregar a revista mensalmente e depois de alguns atrasos acabou trocado nos desenhos. A ausência de Quitely e as brigas de Morrison com a Marvel fizeram com que o final de sua passagem fosse bem menos interessante que o início, infelizmente. Ainda assim o escocês conseguiu organizar algumas coisas no mundo dos Mutantes: ressaltou uma vez mais o estigma de minoria perseguida do qual Stan Lee tanto gostava e transformou a Rainha Branca, antiga vilã da série, em heroína. Emma Frost, aliás, foi uma sacada sensacional de Morrison para fazer o próprio Scott Summers evoluir e sair do beco sem saída que era o relacionamento que mantinha desde sempre com Jean Grey. Além de reinventar Emma Frost Morrison ainda foi responsável pela criação de personagens que se tornaram importantes como Quentin Quire e Cassandra Xavier.

3) We3

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                Um gato, um cachorro e um coelho. Mecanicamente “melhorados”, esses animais seriam as armas do futuro para o exército americano. Seriam. Porque aparentemente, alguma coisa deu errado. Morrison consegue, num texto maravilhoso, nos passar a percepção dos animais a respeito do que está acontecendo. A ideia dele não é a de bichos antropomorfizados, mas de bichos-bicho mesmo. Até falar eles falam, mas expressam apenas os sentimentos e instintos que possuem. Se a ideia é boa, a parceria com Frank Quitely ajudou a transformar We3 numa obra de arte. Morrison se esforçou em criar um texto enxuto que é complementado e ganha cadência na narrativa dos desenhos de Quitely, que se esforça para que vejamos as coisas da mesma maneira que os bichos as percebem. A Panini recentemente relançou We3 no Brasil e se você ainda não leu, sugiro fortemente que o faça.

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(É até difícil escolher entre as artes de Quitely para We3)

4) Batman

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                Grant Morrison foi “dono” do Batman por quase oito anos na DC. Morrison é, ao contrário de Alan Moore, um eterno fã dos quadrinhos de herói. O exercício que ele se propôs, ao assumir o morcegão, foi que TUDO que havia sido publicado em setenta anos de Batman era cânone. E, lisérgico como ele só, mergulhou de cabeça nas aventuras psicodélicas do Batman dos anos 50. Se você quiser entender um pouco em especial o início da fase Morrison, a Panini publicou por aqui o “Arquivo de Casos Inexplicáveis”, uma coletânea de histórias daquela época que incluem o Batman Zebra, o Batman do Planeta Zur En Arrh, o Batminho e outras maluquices e preciosidades (das quais o Morrison usou e abusou, em especial nos arcos “Batman e Filho” e “Batman RIP”.

                Além das psicodelias, Morrison resgatou uma história obscura dos anos 70 que estava relegada a um elseworld, onde Bruce Wayne teve um filho com Tália Al Ghul, filha de um dos seus maiores inimigos. A partir do momento em que TUDO era cânone, essa história também passou a ser. E Grant Morrison criou Damian Wayne. Um menino de dez anos criado pela liga dos assassinos para ser nada além de uma máquina de matar. E um pentelho CHATO PRA CARAMBA. Damian é tão insuportavelmente chato que acaba se tornando um personagem maravilhoso. De longe, a maior contribuição de Morrison para a mitologia do morcegão foi trazer essa história de volta e fixar Damian nas histórias. Não por acaso o menino se tornou um dos preferidos dos leitores até hoje. A Panini recentemente republicou o encadernado de capa laranja “Batman e Robin”, que tem provavelmente os melhores arcos da passagem de Morrison pelo título. O interessante é que esses arcos NÃO TEM Bruce Wayne. O Batman é Dick Grayson, o primeiro pupilo de Bruce, tentando se adaptar ao papel depois da “morte” de Bruce. E o Robin é Damian Wayne, tentando canalizar toda sua fúria e disciplina para fazer coisas boas (ou o que ele acha que são coisas boas). Mais uma vez, a arte de Quitely torna tudo mais interessante e casa perfeitamente com a narrativa do escocês. Além de Damian fixado como Robin, fica dessas histórias também um novo vilão que poderia fazer parte da mitologia do Batman desde sempre, o Professor Porko.

5) Grandes Astros: Superman

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                O que o Superman faria se soubesse que ia morrer? A resposta para esse pergunta rendeu uma série em 12 edições que se tornou seminal na mitologia do Homem de Aço. “Grandes Astros: Superman” é uma declaração de amor aos quadrinhos, aos super-heróis e a ele, que representa tudo isso: Clark Kent, o menino de Kansas, o homem de Krypton.

                Morrison coloca o Superman para realizar doze grandes tarefas, nos moldes dos trabalhos de Hércules, para tornar o mundo melhor sem ele. Nesse caminho o Escoteirão revisita inúmeras passagens clássicas de toda a história do Homem de Aço. Mesmo os inimigos mais estranhos lá da Era de Prata, como o Sr. Mxyzptlk e Bizarro, são contemplados. O arco de Superman no Planeta Bizarro e o seu encontro com Zibarro, o Bizarro que não pensa ao contrário, é lindo (apesar de meio trabalhoso de ler). Há um carinho muito grande com os coadjuvantes do Superman como Lana Lang, Jimmy Olsen e, principalmente, Lois Lane (que simplesmente se recusa a acreditar quando Clark revela que ele é o Superman. Como é que ela, a maior repórter investigativa do mundo, nunca tinha se dado conta??).

                Mais uma vez a arte de Frank Quitely casa divinamente com o trabalho de Morrison. Ele desenha o Superman um pouco maior do que os outros personagens, dando a ele a figura mítica/divina que ele é nessa história. E a diferença de quando ele desenha Clark Kent é nítida na postura, nos ombros, nos detalhes. O trabalho de Morrison é sempre melhor quando acompanhado da arte de Quitely.

                Talvez a cena mais emblemática de Grandes Astros Superman aconteça ainda no primeiro número, quando Superman salva a adolescente que estava prestes a se matar. Ele poderia ter simplesmente tirado a menina de cima do prédio. Poderia ter esperado ela pular. Poderia ter perdido muito menos tempo do que “perdeu” ali. Mas não. Ali ele mostrou que o que faz ele ser o Superman não são os seus poderes quase infinitos, mas sim a empatia. O maior poder do Superman é a compaixão.

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